O segundo gato 

Em cada gato há outro gato 
um pouco menos exacto 
e um pouco menos opaco. 

Um gato incoincidente 
com o gato, iridescente, 
caminhando à sua frente 

ou a seu lado, 
espírito alado 
do que é terrestre no gato. 

É o segundo gato 
que permanece acordado 
com o gato afundado 

em sono abstracto, 
aos seus pés enrolado, 
espécie de gato do gato. 

Ou que, mais tardo, 
deambula pela sala 
enquanto o gato se lava, 

às vezes assomando 
nos olhos do gato 
como um passado imóvel e 

enclausurado. 
O próprio gato 
não sabe 

que anda por ali 
algo que não cabe 
dentro nem fora de si. 


In TODAS AS PALAVRAS. POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
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