É noite e os pensamentos que eu não quero
Visitam-me o princípio de sonhar.
A loucura que aguardo e que não espero
Começa no meu cérebro a falar.

Mistura-se-me tudo na consciência
E eu sinto que por baixo existo eu.
Quero mexer mãos de incoexistência
E afastar do meu corpo aquele véu.

Mas as imagens como acontecimentos
Percorrem-me como se eu fosse um largo
Coexistem impossíveis pensamentos
No meu cérebro vão que □

E na noite em que quero dormir passa
Tudo menos o sono no sono-erro;
Como um riso na casa da desgraça
Ou um palhaço num séquito de enterro.

9 - 10 - 1923

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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