Lábios formando
O sonho de um beijo...
Nunca ides além
Do mero desejo...

Tocar outra boca
Na nossa é tristonho
Para quem conhece
O sabor do sonho

Invisíveis bocas
Que nos vêm beijar
De um céu que só existe
No nosso sonhar...

O que dão só essas
Nunca tirarão...
E que no seu dá-lo
Nunca no-lo dão...

Deixai-me sonhar
Sem eu o saber...
Ou sabendo-o sempre...
Como pude ser.

10 - 1 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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