Não estou pensando em nada 
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,  
É-me agradável como o ar da noite, 
Fresco em contraste com o verão quente do dia, 
Não estou pensando em nada, e que bom! 

Pensar em nada 
É ter a alma própria e inteira. 
Pensar em nada 
É viver intimamente 
O fluxo e o refluxo da vida... 
  
Não estou pensando em nada. 
Só, como se me tivesse encostado mal. 
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,  
Há um amargo de boca na minha alma:  
É que, no fim de contas, 
Não estou pensando em nada, 
Mas realmente em nada, 
Em nada...

6 - 7 - 1935

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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