Um pouco mais de sol —eu era brasa,
Um pouco mais de azul — eu era alm
Para atingir, faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aqum ...

Assombro ou paz ? Em vo ... Tudo esvado
Num grande mar enganador d’ espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — dor! — quasi vivido ...


Quasi o amor, quase o triunfo e a chama,
Quasi o princpio e o fim — quasi a expanso ...
Mas na minh’ alma tudo se derrama ...
Entanto nada foi s iluso !

De tudo houve um comeo ... e tudo errou ...
— Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim ...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elanou mas no voou ...

Momentos de alma que desbaratei ...
Templos aonde nunca pus um altar ...
Rios que perdi sem os levar ao mar ...
nsias que foram mas que no fixei ...

Se me vagueio, encontro s indcios ...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mos d' heroi, sem f, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipcios ...

Num mpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possu ...
Hoje, de mim, s resta o desencanto
Das coisas que beijei mas no vivi ...


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Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora alm.
Para atingir faltou-me um golpe d’ asa ...
Se ao menos eu permanecesse aqum ...

 


Paris, 13 de maio de 1913
Mário de Sá-Carneiro
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