onde começará o esquecimento?
num outro lugar desejado desponta a flor do loureiro
e a cautela do sangue
um corpo de aromas longínquos rasga o espaço da fogueira
vertiginoso não se detém
um sátiro acenava-nos com um falo em couro vermelho
suspeito que é noite já há muito tempo
ouço-me latejar
Alexandre perfumava o sexo com Íris de Corinto
a imagem que possuo da morte
é a de um pássaro brusco sulcando o chão
por isso todas as fotografias estão repletas de mel
mas vazias de ti

estava a ouvir-te
que desarrumo propositado vai pelo quarto
eu bordava um pano com flores de estonteante açafrão
dormitava sentado à janela espiava o mar
e corpo coberto de dúvidas e medo

a memória arrasta-se sobre a pele de tua ausência
é uma língua recolhendo minúsculos dejectos
que aderem aos meus ténis para dançar rock'n'roll
uma sirene um insecto em volta do candeeiro
por fim ouço a chuva balbuciar teu nome contra o empedrado

na sua infância Alexandre comia com os dedos
calei-me
o dia está límpido
um travo de sal arde-me na boca aflita


In O Medo
Al Berto
« Voltar