Não para nós, os fracos, para quem a vida é tudo 
E o que há além da vida ainda é a vida além, 
Nem o cálix, nem a □, nem sequer o escudo, 
Nem a esperança maior que, quando a dor sobe,1 vem. 

Não é para nós, para quem pensar é mais que saber, 
Para quem a alma sentir é a alegria e a vida, 
Nem o pálio, nem a veste, nem a solidão sem ver 
Que é a Última Porta, e a Visão sem fim, e o final da subida. 

Não para nós, não para nós, que queremos e obtemos 
E afinal somos o fumo e a sombra dum querer maior 
Que somos o mero acto de outro que nunca vemos... 
Nega o mundo e confia em Budha, Nosso Senhor.


□ espaço deixado em branco pelo autor
26 - 2 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar