Embalai nos braços
(A noite é suave
E aromas dispersos
Parecem infindos)
Embalai nos braços
Os infantes lindos

E cantai-lhes triste
(A noite é de prata
E o silencio assiste
À beleza etérea)
Cantai esta triste
Melodia aérea:

«Havia uma fada
(A noite é silente
E água prateada
Treme em solidão)
Havia uma fada
Que amava um tritão...

O tritão ficara
(A noite é □
Como pedra rara
E Eleusis)
O tritão ficara
Dos antigos deuses.

E a fada fugira
(A noite na □
Em ardor suspira,
Pensamento-monge)
E a fada fugira
Do deus, ao longe.
 
Amaram-se, a fada
(A noite silente
É entrecortada
Dum suspiro fundo)
Amaram-se, a fada
E o tritão jocundo.

E juntos morreram
(No vento □
Do vento nasceram
Os primeiros ais)
E juntos morreram
Nos mares fatais.

Mas deixaram pura
(Eis a noite fresca
Que se torna escura
No morto horizonte)
Mas deixaram pura
Uma filha insonte.

E essa filha triste
(No horizonte negro
O negrume existe
Menos, era alvor)
Essa filha triste
Dum secreto amor.

Porque ela no mar
(Uma linha vaga
Do alvor □
O □ doente)
Porque ela no mar
Fada □ se sente.

E na terra tudo
(Eis quasi alva a linha
Do horizonte, e em roda
Que burburinha)
E é na terra toda
Sente-se náiade.

E por isso chora
(Esbranquecia já mais
O alvor da aurora
No nítido horizonte)
E por isso chora
Quer em mar ou monte.

E por isso canta
(É dum branco estranho
O aurorear que encanta
A alma à solidão)
E por isso canta
Com o coração.

E o silêncio faz
(O horizonte nítido
Prende a nitidez
Numa vaga cor)
O silêncio faz
Eco à sua dor

E essa voz que chora
(É dum verde vago
O nascer d’aurora
No horizonte em sombra)
E essa voz que chora

Chora a vã tristeza
(Cora levemente
Verde na incerteza
Do rubro silente)
Chora a vã tristeza
Do eterno ausente.

2 - 5 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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