Ó lábios da Noite calma
Invisíveis e reais
Que na fronte da minha alma
Maternalmente pousais,
Vosso frescor não acalma
Esta dor que não tem ais...

Braços da Calma, que eu sinto
E não vejo, em torno a mim,
E por isso mais me minto
De que sou a vós afim,
Aquém de vós eu pressinto
Que minha dor não tem fim...

Corpo noivo meu da Morte,
Tão perto e tão irreal,
De nada vale ser forte
À minha alma e ao seu mal...
P’ra além de ti, ó consorte,
Minha dor é sempre igual...

6 - 11 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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