O a quem tudo é negado
Tem o mundo por fado,
O a quem ninguém ama
Tem a vida por chama
Esse a quem tudo falta,
Por baixo, a alma é alta.

São muitos os caminhos
E alheios os vizinhos!
São largas as estradas
E as distâncias erradas,
Mas sempre sobra à alma
A fé que a faça calma.

Assim, sem espada ou lança,
Vou, como uma criança!
Pela estrada cantando
Porque vou confiando.
Vou sem medo e sem frio
Não sei em que confio.

25 - 5 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar