Gnomos do luar que faz selvas
As florestas sossegadas,
Que sois silêncios nas relvas,
E em áleas abandonadas
Fazeis sombras enganadas,

Que sempre onde a gente olha
Acabastes de passar
E só um tremor de folha
Que o vento pode explicar
Fala de vós sem falar,

Levai-me no vosso rastro,
Que em minha alma quero ser
Como vosso corpo, um astro
Que só brilha quando houver
Quem vos sonhe sem vos ver.’

Assim eu que canto ou choro
Quero velar-me e partir.
Lembrando o que não memoro,
Muitos me saibam sentir,
Ninguém saiba definir.

26 - 7 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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