Quando os anjos são gente são crianças,
Crianças pequeninas que não crescem
Porque, como aqui são
Visitas, só, das nossas esperanças,
Sorriem para o nosso coração
Só um ano ou dois; depois desaparecem.

Será que o céu não pode aqui deixá-las
Mais que o tempo, tão pouco!, que há que dar
Para que o coração aprenda a amá-las,
E assim possa aprender a tudo amar?

Não sei... Talvez saudades da outra vida
As façam regressar depressa ao céu
Depois de estar sua missão cumprida —
Qualquer missão, por nós desconhecida,
De amor e paz, que Deus nos deu.

Vêm, sorriem, passam, como a flor
Deixa cair as pétalas já fanadas...

Ai, Maria Leonor,
Teus olhos cujo azul era o amor,
E as tuas pequenas mãos tão lindas!

29 - 11 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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