Onde pus a esperança, as rosas
Murcharam logo.
Na casa, onde fui habitar,
O jardim, que eu amei por ser
Ali o melhor lugar,
E por quem essa casa amei —
Deserto o achei,
E, quando o tive, sem razão p’a o ter.

Onde pus a afeição, secou
A fonte logo.
Da floresta, que fui buscar
Por essa fonte ali tecer
Seu canto de rezar —
Quando na penumbra penetrei,
Só o lugar achei
Da fonte seca, inútil de se ter.

P’ra quê, pois, afeição, ‘sperança,
Se perco, logo
Que as uso, a causa p’ra as usar,
Se tê-las saiba a não as ter?
Crer ou amar —
Até à raiz, do peito onde alberguei
Tais sonhos e os gozei,
O vento arranque e leve onde quiser
E eu os não possa achar!

 

16 - 2 - 1920

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Fernando Pessoa
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