Em dias leves, sonolentos,
Por violentos e esbatidos
(Carícias as antigas) ventos
Contra portões adormecidos,
Perdidos gritos, sim, gemidos
Dos meros ecos friorentos.

E em congruência com a esfinge
Que de cansaço e de demora,
Sombra de abraço agora, tinge
A cor de dor fora da Hora,
Ergue olhos d’ódios, pára e chora
E o seu pranto meu espanto atinge.

Nexos sangrentos por opalas
Que um tédio-névoa em nós seduz
No eco vão das tuas falas’
E tudo se reduz a luz.
Puseram teu nome na cruz
Pelo incenso que nele exalas.

15 - 6 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar