Vêde-o na cruz erguido! sobre o peito
Pendida a fronte na agonia extrema;
Que sublime painel, que alto poema
           De sofrimento e amor!
Um Deus, um Deus à terra se apresenta
A resgatá-la dos grilhões do vício
E a terra ingrata lhe fulmina o exício,
          Dá-lhe em troca o rancor

Ódio por afeição! tormento e morte
Por vida e gozo prometido ao mundo;
Noite escura por dia! um véu profundo
          Por luz de tanto sol!
Martírio pela ideia! alto martírio
A quem ao mundo proclamara o verbo
Que às gerações em seu destino acerbo
          É qual doce farol.

Mas que ideia e que sol jamais aos homens
Surgiu benigno sem que a vista afeita
À sombra escura, que o fulgor rejeita,
           Lhe não temesse a luz?
Que vulto grandioso sobre a terra
Ao soltar da verdade a voz tremenda
Na sagrada missão não vê a senda
         

 


Que ao martírio conduz?
Oh! mas o teu foi tão grande! o que era a terra?
Sangrento circo de leões raivosos,
Mãe d’abominações, festim de gozos
          Dissolutos e vis.

 

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E ei-lo surge, e o fulgor da luz celeste
Derramando na terra corrompida,
Lhe regenera a fatigada vida Inspirando-lhe o amor.
Existe um Deus somente: filhos todos
Somos iguais, do Criador do mundo;
Amarmo-nos, eis o profundo
Verbo do Redentor.

 

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Mas faltava morrer, faltava ainda
Na extrema angústia proclamar seu Verbo,
Do passamento no sofrer acerbo
          Ensinar-nos a amar,
Ensinar-nos a dor, a crença viva
Co próprio sangue assinalar na terra,
Firmar a paz onde reinava a guerra,
          Erguer da cruz o altar!


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Ó Crísto! foi sublime a tua vida
Mas foi mais que sublime a tua morte,
Provando ao mundo no tremendo corte
          Tua origem dos céus.
No amor, na crença, doutrinando o mundo
Foste o Messias d’inspirado alento;
Ensinando o perdão e o sofrimento
          Foste inda o homem Deus!

 


In POESIAS
Soares dos Passos
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