O Sonho ao Poder! O Sonho ao poder!

Há anos que os homens arrastam em vão blocos de nuvens com relâmpagos a dormirem dentro,
pedras com perfis escondidos à espera do desbaste das lágrimas,
fogo fabricado por operários com vocação para dedos de manhãs que não nascem

E afinal para quê?

Às vezes os nossos mortos levantam-se de noite
(Guevara não, porque continua vivo)
e com cóleras de socos-fantasmas nas trevas
os olhos varridos das faces do tempo,
passam em cortejos a pingar sangue
espantados de que o mundo continue igual
com as cidades sem os violinos das transparências prometidas.

Mas onde estão as mulheres e os homens? ….. perguntam…
com os corações de vidro, iluminados por sangue ardente
e as bocas de cristal que nunca se quebram
mesmo quando chocam
no amor cálido das tempestades do frio?

Afinal, para que serviu Lenine?
E o sangue? Para que serviu o sangue?
se os homens ainda vivem em casas com janelas pintadas nas paredes
para imaginar a luz?
Para que serviu o sangue?
que corre em torrentes nos telhados,
nas valetas,
nas luas das coxas das mulheres
desesperadas por não haver sexos de seda
(Pode-se lá amar assim!)
Tudo vinho que se arremeda.
Tudo lume de imitação.

E para isto arrastamos tantos séculos de blocos de nuvens!
pedras de nuvens,
grilhetas de nuvens,
cadáveres de nuvens
…sem podermos construir flores novas, proibidas de repetição.

Vá! Despedacem essa máquina
que existe nas raízes das coisas e das árvores.
Mobilizem os mortos.
Peçam-lhes que façam a verdadeira revolução.

Tanto vivo inútil!
Tanto vivo inútil!
TANTO VIVO INUTIL!
Apenas com o destino da respiração.


Maio-Abril de 1968-1975
José Gomes Ferreira
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