Queima esse livro, carrasco,
          Queima-o todo sem piedade,
Põe na fogueira o apóstata
          Que veio roubar a verdade

«Queima toda a sua casa,
         Mata à fome a descendência,
Separa amigos, divide-os,
         Aos seguidores, inclemência.

«Seus livros, obras, poemas
         Lança ao fogo, ao esquecimento!
Que deles só fiquem cinzas.
         Algo mais neste momento?»

— «A alguns que estão a assistir,
         De lágrimas se enche o olhar.»
— «O fogo será seu fim
         E vão lhes será chorar.»

— «Tudo acabado, senhor.»
         — «Algo deles lá ficou?»
— «Cinzas» — «Deita tudo ao vento;
         Inda algo deles restou?»

— «Senhor, ainda persistem
         Os seus nomes como honestos».
— «Não te rales; vão esquecer
         Como seu sangue e seus restos.»

«Nada já resta». — «Senhor,
         Algo não posso afastar:
Nosso nome será sempre
         Maldição a recordar.»

— «Também seremos esquecidos
         Logo que acabem, um dia.
Então, que resta?» — «Senhor,
         O nome da Tirania.»

— «Esse também passará.»
         — «Mas do que estamos fazendo
— Do mundo mau fica a Causa.»
         — «O que dizes não entendo.»

— «Senhor, penso que é inútil
         Que tudo seja esmagado.
Nome de Deus sempre fica
         P'ra depois ser odiado.»

 

1908

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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