Não sei porquê, de repente
Esfriou-me o coração...
Vaga sensação doente,
Remota sensação
Deu-me no coração...

Não é tédio, nem tristeza
Nem uma dor qualquer...
Mas com que subtileza
Me fez a alma doer
E o corpo estremecer!

Que terei eu perdido
Numa vida de além —
Um amor, um sentido,
Um irmão, uma mãe?...
Que cousa que era um bem?

Qualquer cousa lembrada
Por qualquer cousa em mim...
Ah, como a vida é errada,
E o mistério sem fim
Que na minha alma é p’ra mim!...

19 - 7 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar