Da tarde morna estagna o morto voo
A noite cai sem pensamento meu,
Dói-me a consciência do que sou —
Alguém que nada teve nem venceu.

Ah! tão vazia vida sem que um vago
Fragmento de prazer ou de ilusão
Iluminasse como a lua, o lago
Da minha indefinida indecisão.

Ah, quantos, como eu, fixos no destino
Da falência fatal e necessária
Um amor, um amigo, um □
Tiveram a □ a □ precária...

Nada me trouxe o alívio ou a menor
Hora da vida, nada □
E estes versos que falam minha dor
Falam sem cor de □ e de verdade.
13 - 7 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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