Insónia. Ouço o gemido
Do ermo vento lá fora.
É o único ruído
Na horrível noite agora.

Só. E em confusa lida
De negrume e tremer
Enchem-me o medo à vida
E o terror de morrer.

O  mistério onde estou
E o que terei que achar
Quando entre, mais que só,
No fatal limiar.

Só posso a um horror
Fugir, o outro encontrando.
Num êxtase de dor
Gélida tremo, e brando,

Em torno ao desespero
Que não tem porta ou ‘strada,
Em que nada em mim quero
Nem posso pensar nada,

O vento faz um ruído
Que me deixa mais só,
Medo exterior ouvido
No ermo ser em que estou.

Ah, ao menos a loucura!
A falsa insciência e infância!
Tudo menos a agrura
Desta consciência e ânsia,

Plaino sem horizonte,
Nem □ nem estrada,
E sem ter para onde
Olhar, sem ver o nada.

13 - 7 - 1921

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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