No mais fundo de ti,
eu sei que tra, me!

Tudo porque j no sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que h leitos onde o frio no se demora
e noites rumorosas de guas matinais!

Por isso, s vezes, as palavras que te digo
so duras, me,
e o nosso amor infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao corao
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez no enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e at o meu corao
ficou enorme, me!

Olha - queres ouvir-me? -,
s vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o corao
rosas to brancas
como as que tens na moldura;

ainda oio a tua voz:

Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes! - a noite enorme
e todo o meu corpo cresceu.
Eu sa da moldura,
dei s aves os meus olhos a beber,

No me esqueci de nada, me.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!

 


In Os Amantes sem Dinheiro
Eugénio de Andrade
POEMA à MãE
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