Fonte, mais pura que o lustroso vidro,
mais que o vivo cristal que as rochas veste,
ó de inocentes míseros amores
       outr'ora testemunha;

Com que verso, que iguale o que mereces,
cantarei dignamente as águas tuas,
e a relva que te borda a fresca terra,
       e as flores que a matizam?

Em que verso melhor folgas que entoe
digno louvor às árvores anosas
que te cercam benéficas, lançando
       amiga sombra aos vates?

Se de outras cordas minha lira ornasse
de Maia o filho, o alígero Mercúrio,
se novos sons em minha voz criassem
       as ondas de Aganipe.

Então celebraria os nobres seixos,
onde o sangue de Inês o tempo adora,
onde o sangue de Inês inda hoje arranca
       o pranto a Amor e às ninfas.

Os zéfiros e as auras n’ este sítio
sem que os ais da infeliz jamais esqueçam
tristes movendo a trémula folhagem
       saudade doce avivam

As águas luas, e as vizinhas letras,
sobre as quais cada dia Amor suspira,
o sangue inda recente, os velhos troncos,
       tudo te faz formosa.

Corre, ó Fonte das Lágrimas; ah! sempre
aos ternos corações de amantes tristes
corras grata e suave, e tenhas deles
                      os cultos que te sagro!

 

 

António Feliciano de Castilho
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