Na noite densa, pela rua incerta,
Incertos caminhávamos, pedindo
Cada um ao outro uma palavra certa
Por quem o horror de cada um ser quem é,
Como uma alma quando raia a fé,
Clara se fosse abrindo.

Faláramos de tudo, e a triste cor
Das nossas almas já enchera tudo
E como não faláramos no amor
E só uma agora a □ pertencia
Ficámos, cada um perdido e mudo,
Num silêncio que um grito oculto enchia.

Mas o sossego era mortal e o luar
De um vago azul de prata vinha alando
Sua forma sem forma pelo ar.
A nossa solidão chegava à alma
E qualquer cousa a alma deslocando
Quebrou o fio à nossa □ calma.

E ele disse «falemos da tristeza
De não amarmos. Porque não amamos.
Porque não busca a □ e a beleza
Quem a beleza □ e ama?
Porque sozinhos pela vida erramos
Pasto ardido de velada chama?»

E eu, que ouvira mais o por dizer
Eternamente do que foi dito,
Eu a quem o amor e o prazer
Não quiseram por seu e desdenharam
Do fundo □ do coração proscrito
Estas palavras disse, que □aram:

«Só quem é belo tem direito a amar.
Só o perfeito corpo pede beijos
E pode querer outro corpo enlaçar.
Com certa mão o Fado presidente
Indica quem tem jus a ter desejos
E a quem o Amor em sua grei consente.

«Uma só cousa no destino justo
Faz o Fado ao Amor e à Beleza.
O par  □

Seja forte quem sabe que não merece
Nada do amor.»

□ espaço deixado em branco pelo autor


[1913]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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