Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa
Substitui o calor.
P’ra ser feliz tanta cousa é precisa.
Este luzir é melhor.

O que é a vida? O espaço é alguém para mim.
Sonhando sou eu só.
A luzir, em quem não tem fim
E, sem querer, tem dó.

Extensa, leve, inútil passageira,
Ao roçar por mim traz
A sombra da ilusão, em cuja esteira
A minha vida jaz.

Barco indelével pelo espaço da alma,
Luz da candeia além
Da eterna ausência da ansiada calma,
Fanal do inútil bem

Que se quer, e, se vier, se desconhece,
Que, se fosse, seria
O tédio de o haver... E a luzir esquece
Na noite agora fria.

18 - 9 - 1920

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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