Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
E até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.

Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio, e em mim mesmo a externa treva desce.

Mas, vinda dos vestígios da distância,
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.
Remiu-se o pecador impenitente 
 

Remiu-se o pecador impenitente
À
sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente.


23-9-1933 (dream)

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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