Num grande espaço, onde é clareira, vão
Bailando as fadas e há luar ali.
Se quem olha é feliz, não vê senão
Uma sombra no chão, que é a de si.

Mas se quem olha não conhece nada
E deixa a vida ser o que ela é,
Seus olhos vêem claro cada fada
E cada fada é que merece fé.

Assim ao bosque solitário, e cheio
De cousas que a quem vive são não-ser,
Levei o meu cansaço e o meu enleio,
E, porque não sou nada, pude ver.

Assisti, distraído de ser eu,
Ao bailado das fadas entre si,
E não conheço história de haver céu
Igual à dança anónima que vi.
 
Com que grande vontade do desejo
Eu dera a alma inteira só por ter
Um momento a floresta e o ensejo
E as fadas todas para conhecer.

Criança contra os Deuses, minha sorte
Acabaria ali, dançando ao luar,
E era melhor do que ter vida e morte,
E uma alma imortal com que contar.

Mas tudo isto é sonho, ainda que não.
Fadas, se existem, são de pouca dura.
Só a maçada de Deus tem duração,
Só a Realidade não tem cura.

Quero o luar, quero o luar e as fadas!
Quero não ter nem deuses nem deveres!
Matem-me ao luar, em áleas afastadas!
Corpo e alma enterrem-me entre malmequeres!

19 - 11 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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