Porque nasceste tão de acordo com a vida tão bela
Tu sempre jovem e de alegria  e forte
Porque te deram o eterno olhar e gesto do beijo e aquela
Presença no lugar da Sorte.

Se havias de ser o nome humano do mal,
A estrada suave da nossa perdição
Onde o olhar do remorso se volve ao local
Onde primeiro tremeu a sua na tua mão...

Se havias de ser o jardim e o pomar
Onde o derramar dos perfumes seus teria
Até que sentimos na alma o nevar
E na tua mão sempre quente a nossa para sempre fria.

Se havias de ser a ilusão da vida
A estância onde deixámos passar
Por sob a janela fechada e a cortina corrida
O barco que nos havia de ao porto da alma levar.

Se havias de ser a demora e o cansaço entre a luta,
E o sono, por sonhar no leito do Momento constante
E havias de nos expulsar sentindo já fria e poluta
A mão a quem pedias a manhã dum amante,

Porque foi o teu quedo ser tão formoso? Não era
Mais de justiça que fosses o lago  e estagnado
Onde só já doente uma alma esperar quisera?
Ah as manhãs de verão e as tardes2 de primavera
Ah a doçura da virtude e a beleza do pecado!

 

 espaço deixado em branco pelo autor.

11 - 8 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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