Nos seixos ou pedregulhos
Que saem neste ribeiro
Bate a água e faz barulhos
Fora do barulho inteiro.

Esquecido até de que a vejo
Contemplo-a e nem penso em mim.
Não sonho, não me prevejo,
Não sei de causa ou de fim.

Brandos sons de enrolamento
Que as águas fazem estorvadas.
Tomara eu que o pensamento
Fosse flores petaladas.

Folha a folha, e flor a flor,
Ia-as deixando cair
Nas águas sem ter teor,
Na ida que não quero ir.

Que, ainda que esse conceito
Seja só suposição,
Que faço eu com mais jeito?
Que entendo com mais razão?

16 - 2 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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