Despois que a clara Aurora a noite escura
com novo resplandor foi desfazendo,
e Febo por os montes e espessura
os seus dourados raios estendendo;
se buscava nos vales a verdura
o manso gado a luz serena vendo,
quando a frvida sesta j abrasava,
todo o animal da calma repousava.

J por fugir do sol o fogo ardente,
as sombras os rebanhos vo buscando;
os tenros cabritinhos juntamente
aps as mansas mes iam saltando;
tangendo as suas frautas docemente,
os pastores estavam enganando
a gr chama solar que ento ardia;
s Liso o ardor dela no sentia.

Tristes lembranas tanto o traspassavam,
que a dura sesta nelas s passava.
O tempo, que em prazer outros gastavam,
em celebrar seu mal ele o gastava:
as festas, que com jogos celebravam,
ele com suspirar as celebrava.
Nada buscava mais, mais no queria
que o repouso do fogo em que ele ardia.

Os repetidos jogos dos pastores,
as lutas entre a rama repetidas,
em nada lhe divertem suas dores;
mas antes n'alegria as v crescidas.
Como o repouso roubam os amores
s almas que para eles so nascidas,
ele, todo o repouso que esperava,
consistia na Ninfa que buscava.

Com o choro, que j corria em fio
por o plido rosto, aumenta as fontes,
que levam gua estranha ao claro rio
que os vales vai regando entre altos montes.
Com suspiros a quem o eco pio
responde de apartados horizontes,
os ventos parecia que enfreava,
os montes parecia que abalava.

Que s queixas de seus doces pensamentos
se movessem os montes mais constantes,
se parassem os mais veloces ventos,
que estavam, que corriam circunstantes,
bem se devia dor de seus tormentos,
e inda que fosse em peitos de diamantes;
que um peito de diamante abrandaria
o triste som das mgoas que dizia.

Porm ele as dizia a outro peito,
mais que diamante inexpugnvel, duro;
a f lhe encarecia, a que sujeito
o tinha em pena eterna o amor puro;
mostrava-lhe este n'alma mais perfeito
quanto mais ofendido, mais seguro:
a Ninfa mais segura tudo ouvia,
mas nada o duro peito comovia.

As lstimas aqui tanto cresceram
que se em montes de Hircnia se escuitaram,
tigres nos seios seus mover puderam,
e pedras nos seus cumes abrandaram.
Mas, se no peito as tristes vozes deram
daquela fera humana que buscaram,
ele de as admitir se retirava;
que na vontade de outro posto estava.

Desenganado j da triste sorte,
de que mal fino amor se desengana,
com a desesperana s de sua morte
aquelas penas ltimas engana;
deixando na espessura o claro Norte,
para ele de outra luz mais soberana,
a um vale aberto ento sair procura,
cansado j de andar por a espessura.

Deixando as suas cabras que pascessem
naquele verde prado as frescas flores,
por que os Stiros leves o soubessem
e os silvestres Faunos amadores,
tambm por que os pastores o entendessem,
todo o processo e fim de seus amores
escreveu – sem em nada haver mudana -,
no tronco de uma faia por lembrana.

Por lembrana no tronco de uma faia,
que vai saindo ao cu de puro altiva,
na verde, prateada e urea praia,
por onde o claro Tejo se deriva;
por que tambm ao Cu sua dor saia
sobre aquela corrente fugitiva,
escrita no papel da natureza,
escreve estas palavras de tristeza:

«Natrcia, Ninfa bela, por quem vivo
em tal tormento, tempo algum me olhou;
mas ds que em mi sentiu que era cativo
daquele brando olhar que me enganou,
o amor tornava em desamor esquivo;
e dum tormento tal a outro passou.
Em cousas to sujeitas a mudana
nunca ponha ningum sua esperana.

Para dar proveitosos desenganos
dos enganos que so de Amor efeitos,
e dos dous sexos publicar, humanos,
a origem das mudanas de seus peitos;
estas letras aqui por longos anos
digam a coraes a amar sujeitos
em peito varonil, que de ventura,
em peito feminil, que da natura...»

Faltou-lhe aqui o alento e, j cansado
caiu ao p da faia em que escrevia,
no podendo seguir o comeado,
porque a alma j do corpo lhe saa;
trs vezes, com acento mal formado
para exemplo futuro repetia:
«Amantes, entendei que a mor beleza
somente em ser mudvel tem firmeza.»

Luís Vaz de Camões
[DESPOIS QUE A CLARA AURORA A NOITE ESCURA]
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