Ela

Se cada lágrima que choro fosse ouro
E a cada suspiro lágrimas surgissem,
Não irias tu, com beijos ousados,
Apanhá-las quando, soltas, caíssem?
Se a cada palavra minha de amor
Chovessem pérolas vindas do ar, 
Que agradável te seria a prova
De ouvir-me para sempre falar!

Ele

Se a cada olhar amoroso que lanço
Um cheque fosse passado, assinado,
Se o final de cada lágrima o último
Empréstimo a ser pago e cobrado;
Se cada olhar doce fosse uma nota
E o mesmo fosse um suspiro de dor,
Não me farias aprender de cor
Demonstrações de falta de amor?

Ambos

Que fazer então? O que somos ambos
Senão seres do tempo presente?
Ouro é a carne do caldo da vida,
Como a vogal na rima se sente.
Até um velho e triste penhor
Um certo preço desejará ter.
Se nós todos de ouro fôssemos feitos
Nosso amor, como ele, iria valer.


1905

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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