Descia eu o Bairro Alto
Quando num  sobressalto
A dolência de uma canção
Cantava-a uma rameira
A uma porta, sem freguesia
Tristeza do entardecer
E eu 
 
De que lugar da alma são
Te vinha essa triste canção?

Do lugar onde estão guardados
 tem
E onde ainda relembrados
Os beijos são da tua mãe
Quando ela, tu infante, te passeava
A triste e impura, e te beijava?

Dum lugar d’alma já esquecido
No qual1 o teu primeiro amor
Nasceu e enfim desiludido
Morreu, ficou fanada flor
Guardada ali e ali perdida
Ao teu  torpor?

E eu choro, ouvindo-te. O que somos
Ai de nós! e podemos  ser!
Quanta vida no querer fomos
E quanta ânsia no esquecer
E não esquecemos e então
Na nossa hora a alma a arder
Acorda enfim numa canção.

E canta com cantos, triste,
E sente-se como esquecida
Numa lembrança que consiste
Em se ir  e desvivendo
E enfim um suspiro a fecha
E tristes nós se a perdendo,
Nem uma lágrima nos deixa!

E o mistério de tudo é tão
Visível na tua vida e fado absurdo
Que esqueço até a compaixão
E fico  e surdo
E dolorido, como quem
Pensasse, ó triste, ser tua mãe...

  espaço deixado em branco pelo autor

 

 

1 - 7 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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