Da nossa semelhança com os deuses
      Por nosso bem tiremos
Julgarmo-nos deidades exiladas
      E possuindo a Vida
Por uma autoridade primitiva
      E coeva de Jove.

Altivamente donos de nós-mesmos,
      Usemos a existência
Como a vila que os deuses nos concedem
      Para, esquecer o estio.

Não de outra forma mais apoquentada
      Nos vale o esforço usarmos
A existência indecisa e afluente
      Fatal do rio escuro.

Como acima dos deuses o Destino
      É calmo e inexorável,
Acima de nós-mesmos construamos
      Um fado voluntário
Que quando nos oprima nós sejamos
      Esse que nos oprime,
E quando entremos pela noite dentro
      Por nosso pé entremos.

30 - 7 - 1914

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
[DA NOSSA SEMELHANÇA COM OS DEUSES]
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