Paira nos bosques nocturnos
Um som de água sossegado.
Meus passos seguem soturnos
Sozinhos com o meu fado.
Paira nos bosques nocturnos
Um som de água sossegado.

A paz não vem por lembrança
Nem se esquece por vontade.
Se hei-de viver sem ‘sperança,
Quero viver sem saudade.
A paz não vem por lembrança
E esquecer não é verdade.

E fica atrás com o enredo
Dos bosques mistos no escuro,
O som de água entre o arvoredo,
E o meu sentimento obscuro,
Ficam atrás com o enredo

E fica atrás com o enredo
Dos bosques mancha ao luar
O som de água entre o arvoredo
E o meu sentimento no ar.
Ficam atrás com o enredo
Dos bosques sem som que dar.

8 - 12 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar