Quem me pôs nódoas no vestido dela?
Quem me roubou o que não era meu?
Que nuvem veio interromper a estrela
Que me era todo o céu?

Que insulto absurdo da maré da sorte
Me leva na ressaca o sonho e a glória
Que porque os tive ao desprezar a morte,
Seriam minha história?

Quem, depois, no silêncio de eu pensá-lo,
Tudo me restituiu em maré cheia,
Como um rei que a um cego, seu vassalo,
Restitua a candeia?

 

 

 

9 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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