CANTO PRIMEIRO

 

          Esta é a ditosa pátria minha amada,
          À qual se o céu me dá que eu sem perigo
          Torne com esta empresa já acabada.
          Acabe-se esta luz ali comigo.

                                         Lusíadas

I

Saudade! gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o íntimo peito
Com dor que os seios d’alma dilacera,
— Mas dor que tem prazeres — Saudade!
Misterioso nume, que aviventas
Corações que estalaram, e gotejam
Não já sangue de vida, mas delgado
Soro de estanques lágrimas — Saudade!
Mavioso nome que tão meigo soas
Nos lusitanos lábios, não sabido
Das orgulhosas bocas dos Sicambros
Destas alheias terras — Oh Saudade!
Mágico nume que transportas a alma
Do amigo ausente ao solitário amigo,
Do vago amante à amada inconsolável,
E até ao triste ao infeliz proscrito
— Dos entes o misérrimo na terra —
Ao regaço da pátria em sonhos levas,
— Sonhos que são mais doces do que amargo,
Cruel é o despertar! — Celeste nume,
Se já teus dons cantei e os teus rigores
Em sentidas endechas, se piedoso
Em teus altares húmidos de pranto
Depus o coração que inda arquejava
Quando o arranquei do peito malsofrido
À foz do Tejo — ao Tejo, ó deusa, ao Tejo
Me leva o pensamento que esvoaça
Tímido e acovardado entre os olmedos
Que as pobres águas deste Sena regam,
Do outrora ovante Sena. Vem, no carro
Que pardas rolas gemedoras tiram,
A alma buscar-me que por ti suspira.

II

Vem; não receies a acintosa mofa
Desta volúvel, leviana gente:
Não te conhecem eles. — Eia, vamos!
Deixa o caminho da infeliz Pirene:
Tais mágoas, como aí vão, poupa a meus olhos;
Assaz tenho das minhas. — Largo! aos mares;
Livres corramos sobre as ondas livres
Do Oceano indomado por tiranos,
Livre como saiu das mãos do Eterno,
Sua feitura única no globo
Que ímpias mãos d’homens não puderam inda
Avassalar, destruir. Aí d’entre as vagas
Surge a princesa altiva das armadas,
Pátria da lei, senhora da justiça,
Couto da foragida liberdade.
Salve, Britânia, salve, flor dos mares.
Minha terra hospedeira, eu te saúdo!
Se ora pousando em tuas ricas praias,

Pudesse ir abraçar fiéis amigos
Que pelas ribas desse nobre Tamisa
Vivem à sombra da árvore sagrada
De abençoada independência a vida!
Não posso; mas sobeja-me a lembrança
Indelével, e a voz não morredoura
Da amizade gratíssima e sincera.

III

Certo amigo na angústia, que aos tormentos
Mirradores que a vida me entravavam,
Adoçaste o amargor, e com benigna
Dextra cravaste à roda do infortúnio
Cravo que o giro bárbaro lhe impeça;
A ti, a quem a vida, que se me ia
Em desalento, em desconforto, devo,
A ti minhas endechas mal cantadas
Nas solidões do exílio, onde as repetem
Os ermos ecos de estrangeiras grutas,
A ti meus versos consagrei na lira:
Quebrada sobre o escolho da desgraça
Inda lânguidos sons desfere a medo,
Que a teu fiel ouvido vão memórias
Lembrar da pátria e recordar do amigo.

IV

Ouves? Rija celeuma aos ares sobe
E fere os ventos que nas ondas folgam.
— «Terra, terra!» bradou gajeiro alerta.
— «Terra!» ecoa confusa vozearia
Da marítima turba: Oh! voz querida,
Doce aurora de gozo e de esperança
Ao coração do nauta enfraquecido,
Do alquebrado sequioso passageiro,
Que a esposa, os filhos, ou talvez a amante,
Nessa voz doce e grata lhe alvejaram.


V

Terra, e terra da pátria! Debuxada
Se vê pulando a mágica alegria
Nos semblantes de todos. Já contentes,
Um se afigura surpreender o amigo,
Outro à esposa fiel cair nos braços;
Este da velha mãe, que há tanto o chora,
Ir enxugar as lágrimas aflitas;
Aquele, entre alvoroços e receios,
Não ousa de pensar se ao pai enfermo
Na descarnada mão rugosa e seca
Ósculo filial lhe é dado ainda
Respeitoso imprimir, — ou se a ternura,
Se o amor de filho sobre a laje avara
Se irá quebrar de gélido sepulcro
Que em sua ausência — tão longa — lho roubasse.
Qual da amada, que sempre foi constante,
— Ou sempre, ao menos lha pintou de longe
A namorada ideia — perto agora
Começa de temer que tal distância,
Separação tamanha e tão comprida,
Novo amante mais perto... — Mas quem sabe?
Talvez... E esse talvez é de esperança
Sempre querida, sempre lisonjeira.

VI

Um só no meio de alegrias tantas
Quase insensível jaz: calado e quedo,
Encostado à amurada, os olhos fitos
Tem nesse ponto que negreja ao longe
Lá pela proa, e cresce a pouco e pouco.
Era esse o extremo promontório
Que dos montes de Cíntia se projecta
Sobre o fremente Oceano que na base
Tremendo quebra as enroladas vagas.
No gesto senhoril, mas anuviado
De sombras melancólicas, impresso
Tem o carácter da cordura ousada
Que os filhos enobrece da vitória:
Gesto onde o som da belicosa tuba
Jamais a cor mudou, nem feito indigno
Tingiu de pejo vil. Na tez crestada
Honrada cicatriz, que envergonhara
Adamados de corte, dá realce
Às feições nobres do gentil guerreiro.
Desses olhos que a luz ateou do engenho,
Quem um dos lumes apagou? — A guerra
No campo das batalhas. Um que resta
Vivaz centelha, e ávido se alonga
À recobrada pátria. — «Pátria» disse
Em voz tão baixa, que a tomaras antes
Pelos ecos do interno pensamento
Falando ao coração sem vir aos lábios,
«Pátria, alfim torno a ver-te» — E lacerando
Entre os lábios mordidos o ai sentido
Que as piedosas palavras lhe seguia
Recaiu na tristeza taciturna
De que a ideia da pátria o despertara.

VII

Galerno e fresco o vento sussurrava
Pelas inchadas velas. Já na terra,
Que a olho se avizinha, as mal distintas,
Diversas cores surdem; — logo o escuro
Dos pardos sulcos discrimina a vista
Dos arrelvados campos; depois vêem-se
As casas alvejando entre a verdura:
Eis claro o porto amigo. — Tal observas,
Sob os pincéis de artífice divino,
Primeiro a incerta cor de vagas tintas
Que aos toques mestres, nesse caos d’arte,
Se desenvolvem claras, se aviventam;
Azula o céu, alteia-se a montanha,
Copa-se o bosque, escarpam-se os rochedos,
De amenas flores se recamam prados
Que pisam ninfas belas... Pasma absorta,
Admirando-se n’arte a natureza.

VIII

O sol descia rápido, e já perto
De seu diurno termo, começava
A distinguir no verde-mar das águas
A açafroada cor de que se adorna
No ocaso derradeiro. Leves giram,
Do seguido baixel cruzando em torno,
Como um bando de loucas mariposas
Em derredor da chama, as destemidas
Da férrea proa rápidas muletas.
Grosseiros parabéns em brado rudo
Dos leves barcos soam: modulada
Ao rouco som das vagas nos cachopos,
A voz do pescador brama como elas.
— «Piloto!» gritam; e a um sinal de bordo
Do alteroso galeão, dum salto pula,
— Qual delfim namorado nas campinas
Do azul-escuro mar — o palinuro
Nos segredos do Tejo iniciado.
Rege a manobra falador apito:
— «Ala... amaina!» Eis passada a estreita boca
Por onde seus tributos d’água e d’ouro
Leva ao Oceano o rio de Ulisseia.
Junto da torre antiga e veneranda,
— Hoje tão profanado monumento
Das glórias de Manuel — âncora desce;
E aos ingratos, inóspitos baloiços
Do longo velejar, sucede o brando
Meneio da suavíssima corrente,
Que no remanso de seguro porto
Tão doce é de sentir ao nauta exausto
Dos repelões irados de Neptuno.


IX

À monótona grita compassada
Da festiva companha se ala o esquife
Ao bordo erguido, donde desce às águas.
Alegres, — como a noiva que franqueia
O limiar da paternal morada
No risonho cortejo que em triunfo
A leva às casas do ansiado esposo -,
Ao pintado escaler velozes saltam
Dos passageiros a ávida caterva.
Desce último o guerreiro pensativo.

X

— «Rema!» Da popa, onde modera o leme,
Brada o mestre: obedece à voz o remo;
E ao golpe certo resvalou dum pulo
Pela corrente lisa o leve esquife.
Um sentido clamor, como suspiro
De amargurado tom, vem da amurada
Do alteroso galeão. Volvem-se os olhos
Maquinalmente ao sítio donde veio.
Quem viram nele? Um pálido semblante,
Onde à malaia cor requinta o cobre
Viva expressão de angústia. Os olhos negros,
Nessas faces tostadas do sol d’Ásia,
Brilham por entre as névoas duma lágrima,
E parecem dizer na muda súplica:
— «Oh! não abandoneis o pobre escravo!»


XI

Do homem, que é mau do berço à sepultura,
Uma só coisa à natureza deixam
Os hábitos ruins que não pervertam:
Do coração é o primeiro impulso.
O gesto aflito do Índio suplicante
Dos remeiros contrai as mãos calosas,
E involuntária a compaixão se pinta
No parecer de todos. — Mas não tarda
A sufocar a débil voz do instinto
O que chamaram reflexão no mundo:
Melhor dirias reacção dos hábitos
Que um instante vergou a natureza.
— «Avante!» clama o torvo mestre. «Avante!»
Como que envergonhado do momento
Que involuntário ao coração cedera.
— «À fé que não» gritou co acento austero
Que tão bem fica aos lábios da virtude,
Quando ante a prepotência ousam de abrir-se,
«À fé que não» bradou, e em pé se erguia austero
O nobre, melancólico soldado,
Sem desfitar do humilde escravo a vista,
«Encontrai a tomá-lo.»
          — «O quê, amigo?
Por vida minha, o que quereis ao Índio?
Neste meu escaler dessa fazenda
Não levo a terra».
 — «Tal fazenda é ela,
Que desse estofo a não vereis amiúde.»
— «Grão valor é o do escravo!»
— É meu amigo.»
— «Amigo! amigos tais trazeis ao reino!
Rico vindes da Índia.»
 — «Rico!... certo:
De feridas ao menos...»
     Suspendeu-se,
Corrido das palavras que soltara
Diante de tal gente: a cor do rosto
Claro lhe indica o pejo que envergonha
O homem honrado se indiscretos lábios
No calor da disputa lhe caíram
Em repreensível gabo de si próprio.


XII

No gesto do guerreiro se fixaram
Os olhos circunstantes; e o respeito
Que uma acção generosa inspira ao vulgo,
Por aqueles semblantes se pintava.
Mas o grosseiro mestre não se corre
Do feito descortês: e os sinais tantos
Da desaprovação geral o irritam.
Rudas imprecações, que rudas soam
Como os calabres que reger costuma,
De novo os remos a vogar excitam.
D’alta amurada do galeão suspira
O desprezado escravo. — Um movimento
De involuntária cólera e despeito
Leva a mão do guerreiro malsofrido
Da espada ao punho. — Olhou-o e cum sorriso
Que parece dizer: «Quem sobre as ondas
Vida de p’rigos vive, não enfia
Aos lampejos da espada» — só responde
O carrancudo mestre. — Nesses tempos,
Que heróicos chama o entusiasta ardente,
Bárbaros o filósofo, e que ao certo
Foram pasmosa mescla de virtudes
E atrocidades, — de honra e de crueza,
Era o sangue juiz de tais pendências
E ao defeito da lei supria a espada.
Bárbara usança!... porém nobre ao menos.
Hoje que hemos sofrido de covardes,
Sem pejo, que nos roube a prepotência
Dos tribunais as leis, das mãos a espada...
Degenerados netos, ousaremos
Nossos livres avós taxar de bárbaros?

XIII

Vira o Tejo suas águas cristalinas
Roxas ali de sangue; e o breve espaço
Do curvo esquife não tivera as iras
Da mal-avença aos dois, se um poder alto,
Tão forte quanto é meigo, não viera
Intervir na disputa malferida.
Num canto do escaler, humilde e absorto
Em pensamentos que não são da terra
Um velho, em que até’ li não atentaram
Indiferentes olhos, se assentara.
Alvejavam-lhe as cãs das longas barbas
No burel negro que lhe cobre o peito.
O tempo, que tão longo tem passado
Pela acurvada frente, lhe ceifara
Messes em que talvez a mocidade
Viçosa lourejou: hoje o que resta,
— Raro respigo ao segador caído —
Tira à cor baça do ligado argento.
Como que a humanas cousas retirados,
Se encovaram nas faces descaídas
Os olhos, onde a luz quase assemelha
À lâmpada que ardeu no tabernáculo
Inteira a noite, e ao arraiar do dia
Falece à míngua d’óleo. A mão tremente
Em viageiro bordão arrima; e calçam
Nus os pés as sandálias costumadas
A sacudir o pó da terra do ímpio.
Rico de afrontamentos e trabalhos,
Vinha do longe Oriente à ocídua praia,
Não ao repoiso plácido à velhice,
Mas a solicitar novas fadigas
Em recompensa d’outras. Destes eram
— Antes de se enredar em vãs disputas
De orgulho e presunção mais que mundana —
Os que n’Ásia opulenta, África adusta
Levavam depós si nações inteiras
Ao culto de um só Deus, da lei mais santa,
Que — tirai-lhe o que os homens lhe hão mesclado —
Jamais na terra apregoaram homens.


XIV

Foi este o anjo de paz que em tal fermento
De azedas iras verteu mel suave
Da branda persuasão que as amacia.
— «Cavaleiro, essa mão na cruz da espada»
Disse grave e solene o missionário:
«Quer dizer inimigo, à frente, — na asa
Da batalha, em pendência generosa
Pelo rei, pela pátria... Aqui amigos,
Cristãos, mercê de Deus, somos nós todos
Quantos somos aqui. E ao céu não praza
Que um cavaleiro português arranque
Contra seu natural armas de sangue.
Perdoai as lhanezas de um soldado
Que cercos também viu, e jogou lanças
Com mouros e gentios: — neste velho
Corpo nem sempre andou burel de monge;
Malha também vestiu... — mas uma espada
Ou na batalha em mãos de cavaleiros,
Ou fora dela a rufiões só cabe».
— «Tão covarde não sou que a tal contrário...»
Balbuciou, serenando o cavaleiro:
«Mas» — e de novo a voz se lhe animava,
«Mas o meu Jau fiel, o meu amigo,
Único amigo!»
          – Honra-vos dizê-lo,
Honra-vos, cavaleiro, torna o velho,
Que andrajos e pobreza vos não pejam,
E ousais chamar amigo ao desgraçado.
Mas, filho... mas, senhor, não há bom feito
Que justifique um mau.»
           Ao duro nauta
Voltando-se lhe diz:
- Amigo, é justo
O que pede este nobre cavaleiro.
Duros de coração Deus não ajuda.
Que pesa o pobre escravo? Ir-me-ei a bordo,
E o meu lugar lhe cederei com gosto.
Que tem? Filho de Deus como nós somos.
Mal enroupado? Corações bem nobres
Encobre amiúde o saio remendado.
Se o cavaleiro te ofendeu, seguro
Que não é ele de negar o justo
A quem devido for
            «Não sou por certo:»
O guerreiro acudiu; e mal pesada
Tirou pequena bolsa:
 — «Aí tendes, mestre;
Poucos pardaus contém... (menos me ficam,
Talvez nenhuns...» em tom mais baixo e trémulo,
Quase de não se ouvir; nem certo o ouviram.)
«Porém daqui à praia não vai muito,
E a passagem do Jau...»
 — «Guarda a tua bolsa»
Ruda interpôs a voz rouca do nauta,
- Cavaleiro orgulhoso; tanto quero
Os teus pardaus, como a tua espada temo.
Mas este padre fala como um anjo;
E o que ele disse, é dito. Atraca a bordo;
E abaixo o amigo Jau. — Rema!»
                De um salto
O Índio na lancha; e a lancha em mores pulos
De oito nervosos braços compelida
Sobe do Tejo a límpida corrente.

XV

Após o disputar veio o silêncio,
Que em finda altercação, mal repoisado
O ânimo pede, — e aos na contenda estranhos
Por simpatia natural se estende.
Era então noite: rápidos se esvaem
Em nossos doces climas os momentos,
Que entre as trevas e a luz vacilam curtos.
A natureza, pródiga em beldades
Por tão risonhas terras, lhe há negado
A mágica ilusão que os véus estende
Nessa hora de saudosos pensamentos
Sobre os campos boreais: — hora tão triste,
Mas de tal suavidade melancólica!
— Não te hão formado o coração no peito
As maternais entranhas, se não ouves,
Nessa hora misteriosa do crepúsculo,
Uma voz que te diz: Estes momentos
Consagrou natureza a doces mágoas.
O amigo ausente, a solitária amante,
O pai longe, o filhinho em terra estranha,
Imagens são que do vapor das terras
Amigas fadas no crepusc’ lo formam.
E ante os olhos volteiam d’alma absorta
N’hora sagrada ao génio da saudade.
Oh! serei eu nos sonhos do sepulcro,
Entre o nada das cinzas, — quando a noite,
Qualquer que seja o ângulo do mundo
Em que meus pés se poisem, me não traga
Lembranças dos momentos deliciosos
Que, nesse intercalar de dia e noite,
Da nebulosa Álbion gozei nos campos,
Quando no berço teu, bardo sublime,
Inimitável, único, espraiava
Por infindas planícies d’alvo gelo
Os desleixados olhos, e topava,
Ao cabo lá da vastidão, coas cimas
Das elevadas grimpas que se aguçam
Sobre as arcadas símplices do templo,
Entre as choupanas da vizinha aldeia;
E se me afigurava à mente alheada
Ouvir o canto fúnebre das harpas
Que da sensível Julieta ao túmulo
As nénias acompanham.


XVI
                        

                           Mas quão longe
Me tornou a volver do Tejo ao Tamisa,
Cortado de memórias que o confundem,
O pensamento vago! — Escura a noite
Suas roupas de dó tinha estendido
Pelas torres da ínclita Ulisseia.
Naquele puro céu nem leve sombra:
Ausente era Diana e seu modesto,
Sereno brilho: mas, sem luz que as vexe
Com mais vivo fulgor, se esparze doce
O alvo lume das cândidas estrelas,
Que em trémulos reflexos pelas águas
Do cristalino rio se espelhavam;
Donde consoladora se exalava,
Como um sussurro de viçosas folhas,
A alma brisa da noite, refrescando
Os corpos então áridos das chamas
Com que o touro celeste em fúria ardia.
Raras começam a brilhar nas trevas,
Pelas estreitas góticas janelas,
As veladoras luzes: acalmava-se
O vivaz burburinho da cidade,
E no sossego plácido da coute,
Pouco a pouco, insensível se perdia.

XVII

Esta se abria majestosa cena
De ante os olhos dos nautas que surcavam
Áureos caudais do Tejo. Silenciosos
Se derramavam de olhos satisfeitos
Por quadro tão magnífico, e buscava
Cada qual, pelas trevas mal cortadas
De froixo lume aqui, ali aceso,
Descobrir o paterno, amigo tecto.
E o leve fumo que do lar se eleva,
Onde a ceia frugal, que o não espera,
 Apronta à cara esposa, mal cuidosa
Que há-de aquinhoá-la o pai cos tenros filhos.

XVIII

Tão vivas se pintavam nos semblantes
Estas ideias aos calados nautas,
Que lhas leu neles quem tais pensamentos
Triste não participa. — Quem é esse?
O filho melancólico da guerra.
Leu-lhas; e um sentimento quase inveja...
Não é tão baixo — e amarga, oh! mais do que ela!
Lhe trouxe do mais íntimo do peito
Um suspiro que morre à flor dos lábios.
E sufocado ao coração reflecte.
Aguda foi a dor, acerbo o espinho
Que esse ai lhe pungiu d’alma. — Quem soubera
Os mistérios desse ai! Quem revelara
Os segredos do incógnito guerreiro!
Consome-o acaso a eiva da doença?
De mal vingada afronta a injúria o rala?
Injustiças dos homens o perseguem?
Ou são penas de amor? — Silêncio! deixa
Ao coração do triste o seu segredo.
Espreitar indif’rente os pensamentos
Que os lábios do infeliz fecham no peito,
Curiosidade é vã, mal generosa
E de ânimo insensível: não exijas,
Se o podes consolar, preço tão duro
Por teus confortos. Pouco vale a destra
Que não enxuga as lágrimas do aflito,
Sem lhe rasgar primeiro os seios d’alma
Para lhe esquadrinhar do pranto a causa.


XIX

O escaler abicou na praia amiga;
E a suspirada terra enfim pisaram
Os desafeitos pés. Quantas penúrias,
Quantos perigos, desalentos, sustos
Em viageiras fadigas se hão penado,
Este momento só, esta alegria,
Oh quão sobejo as paga! O sentimento
Quase devoto com que beija o nauta
As areias da pátria, é porventura,
Na peregrinação da nossa vida,
— Se exceptuas a morte — o mais solene.

XX

Separaram-se; e foi caminho usado
Cada um de seu lar. Ledos se foram...
Todos? — Não: três diviso sobre a areia,
A quem parecem vacilar na mente
As ideias penosas que acometem
O viajante isolado em terra alheia.
São estrangeiros? — Dois. Que pátria, longe
Do país lusitano, os trouxe ao dia?
— Entre as palmeiras do cheiroso Oriente
Um na infância folgou: deu-lhe ímpia guerra,
Em troco pela pátria e liberdade,
Ferros de escravidão: — mas há nos ferros
Vínculo às vezes que té prende o ânimo.
Raro o caso verás; porém não chora
O Jau pelos palmares do seu ninho:
Prende-o a amizade, não grilhões de escravo,
A seu senhor, amigo e companheiro.
— E essoutro? — Deu-lhe o ser matrona do Ebro;
E os pendões de Isabel hasteou nos muros
Da vencida Granada: mas a frente,
Hoje de raras cãs mal povoada,
Nem só das murtas se coroou da Alhambra;
Capelas de magnólia em mundos novos
Lhe deram sangue e crimes... Crimes foram,
Que o sócio de Cortez cobriu do saco,
E humilhou nas cinzas a cabeça
Dos louros da vitória descingida.
Pardo burel lhe roça a penitência
Nos membros que luziram d’aço e d’oiro.
Voto solene e zelo d’outra glória
O levou d’além cabo das tormentas
Da aurora aos roxos seios. — Estes eram
Os que junto ao guerreiro silencioso
Mudos como ele e quedos o fitavam.

XXI

Longo o calar não foi: com passo trémulo
Do jovem se aproxima o ancião guerreiro:
 — Nesta grande cidade ambos estranhos Somos, ao que parece.
 — «Estranho eu?... Quase. Sou e não sou estranho.
 — Não me é d’uso
O meter mão curiosa nos segredos
De quem os tem.»
 — «Segredos não nos tenho:
Sou português, e de ser tal me... prezo.»
— Mas de Lisboa não?»
 — «É minha pátria.
Desejais saber mais?
 — Minhas perguntas,
Cavaleiro, não são de curioso;
Outra vez o repito: um pobre monge
Tem uma pobre cela e magra ceia,
Mas ambas oferece d’alma e gosto.
É tarde; e se outro hospício à mão não tendes,
Sereis bem-vindo a um gasalhado humilde
De quem melhor, a tê-lo, o oferecera.
Má noite passareis; mas um soldado
Não teme estrados maus nem leitos duros.
Soldado fui também: ser-me-á ventura
Em meus quartéis d’inverno receber-vos.»
«A cortesia é de ânimo sincero;
Nem sou homem, senhor, que a desvalie.
Mas um desconhecido, e porventura
Dela não mer’cedor, deve aceitá-la?»
— «E porque não, se lhe é mister e a preza?»
— «Conheço...»

            — «A noite passa. Horas são estas
Impróprias de ir buscar outra pousada.
Se vos não peja de aceitar a minha,
Vinde. E pejo de quê? Mesquinha e pobre
É, já vos disse; mas senhores grandes
Em mais pobres mosteiros albergaram.»
— «Ancião venerando, sou convosco:
Honra-me, não me peja a oferta amiga. Uma só coisa... Nada.
Eu já vos sigo.»


XXII

À parte chama o escravo, e da pequena
Bolsa tirou porção pouco avultada
De seu módico haver. — «Busca poisada
Para esta noite; e amanhã bem cedo...»
— «O que fazeis, senhor!» acode ansioso

O velho que os intentos lhe percebe,
- O que fazeis, senhor. Sou eu mais bárbaro
Que o mestre do galeão? Pude com ele
Que de um servo fiel não separasse
O senhor generoso, e havia agora
De fazer eu pior! Envergonhais-me...
Ofendeis-me talvez. Amigo, vinde,
Segui vosso bom amo; para todos
Em nossa humilde casa há tecto e abrigo».

XXIII

Ao Jau fiel caiu de puro gosto
Uma furtiva lágrima que havia
Rebentando de tímido receio,
Mágoa de se ver só, deixar seu amo,
E ir procurando por tamanhas ruas
A quem?... — Ninguém conhece o pobre escravo.

 

 

 

 

 

 

 

                                      CANTO SEGUNDO


          Assim como a bonina, que cortada
          Antes do tempo foi cândida e bela,
          Sendo das mãos lascivas maltratada
          Da menina que a trouxe na capela,
          O cheiro traz perdido, a cor murchada,
          Tal está morta a pálida donzela,
          Secas do rosto as rosas, e perdida
          A branca e viva cor coa doce vida

                                          Lusíadas

I

Que sons descompassados troa o bronze
Nas torres do mosteiro? Que ais carpidos,
Que agudos uivos desgrenhadas gritam
Essas mulheres pálidas? Que fúnebres
Alas são essas de homens todos luto,
De escuro vaso e longo dó vestidos?
Que hinos de morte roucos murmurando
Vão esses cabisbaixos sacerdotes?
Que pompa é essa? Um ataúde a fecha.
Orgulho do homem, dás o arranco extremo
Na vaidade da campa. Que grandezas,
Que distinções queres pleitear ainda
Na igualdade terrível do sepulcro?
Desengano da morte, és tu acaso

Outro sonho dos míseros viventes?
Quem desenganas tu? — Viram de longe,
Caminho do mosteiro, os viajantes
Enfiar a porta máxima do templo
Ordem longa de tochas, baço lume,
Clarão triste de mortos. Sons perdidos
Do salmear monótono lhes trouxe
A gemedora viração da noite;
E o ar pelos ouvidos lh’estremece
Com o dobrar das campas desentoadas.

 

II

Ruim agouro! Um saimento fúnebre
Ao regressar à pátria! Não se pôde
Conter do involuntário pensamento
O português viajante. Mal conhece
A intrepidez dos bravos esse louco
Terror do vulgo que estremece à vista
De um gélido cadáver: costumados
A ver a face pálida da morte,
As agonias roxas, e o transido
Suor do passamento, — não se movem
Seus músculos tão fácil. Mas ressumbra
Não sei quê tão solene e grave e augusto
De um funeral entrando a passo lento
As portas do jazigo, que essa pompa
Triunfal da morte, do mais duro peito,
Ao gesto mais tranquilo traz de força
Contracção impossível de encobrir-se.
Não lhe chamo terror, nome lhe assinem
Qual queiram mais; que o sentimento d’alma,
A impressão natural é sempre a mesma.

III

Desta comum fraqueza — se tal era —
Não foi isento o Luso; — e porventura
Um presságio de incógnita desgraça,
Pressentimento vago e mal distinto
De não sabido mal, se uniu àquela.
O Jau supersticioso, como é de Índios,
Fez claro um gesto de terror, a face
Volveu à esquerda, e coa mão fria trava
Da curta capa ao amo:
          —À esquerda, à esquerda,
Meu senhor não encares um finado
Em sua última viage: há mal em vê-lo
Face por face.»
  «Deixa-me, ignorante,
Com teus medos ridículos.
   - Embora
Embora: mas na Índia...
   - «Não prossigas.»
— E que há, disse, apontando para o féretro
Que entrava a igreja então, o missionário,
«Que há tão medonho e mau nesses despojos
Da passageira vida? Um tronco seco;
Pelos ventos do Outono despojado
Do viço e folhas, — tenda abandonada
Pelo viandante que voltou à pátria.
Oh! seja-lhe piedoso o juiz eterno.


IV

Chegavam aos cancelos do convento,
E o missionário disse: —Cavaleiro,
Da casa do Senhor aberta a porta,
Não passarei sem ir ante os altares
Meu tributo de graças oferecer-lhe
Cuido me seguireis: o humilde cântico
De nossa gratidão irá juntar-se
Com as preces dos mortos. Mas que importa?
Ouvirá Deus a todos. Se lho impedem
Superstições e medo, fique embora
E nos aguarde o escravo.» — Não responde
O guerreiro, mas segue o ancião piedoso.


V
 
Fosse terror, ou sentimento fosse
De mais oculta origem, pelas naves
Do templo entrou com passos mal seguros
Ele, que tantas vezes há rompido
As cerradas fileiras, — que à guardada
Brecha se apresentou com rosto frio,
E a entrou sem vacilar! — Oh! que ente és, homem,
Incompreensível tu! — Do templo em meio,
Alto e funéreo estrado se levanta,
Negro da cor dos túmulos. Em cima
Poisava um ataúde. Alva capela
De quase murchas, desbotadas rosas
Indicava que a vítima da morte
De himeneu ilibada sucumbira.
Pesados lutos e arrastados fumos
Cobriam, perto, amigos e parentes
Fúnebre silenciosos. Arde em torno
Renque de brandões pálidos; e afumam
Do embalado turíbulo os vapores
Da resina sabeia. Ecoa o templo
Coas tremedoras notas desses hinos
Que, na solene entrada do sepulcro,
Terrível canta a igreja, — quase um eco
Da profundez do abismo, que reflecte
Pavoroso na terra. — A ponto entravam
Os viajantes no templo quando o coro:
— Tédio da vida concebeu minha alma;
E é força que desate a própria língua
Contra mim mesmo, — e desabafe o peito
A amargura falando de minha alma.»
«Direi a Deus: não me condenes, ouve-me.
Porque assim me julgaste? Acaso é digno
De ti caluniares-me, avexar-me,
A mim que sou das tuas mãos feitura?»

«São teus olhos de carne como os d’homem?
Como eles vês e julgas? — Porque ao dia,
Do cárcere materno, me hás trazido?
Oxalá que eu não visto perecera
De olho nenhum vivente, e houvera sido
Como se nunca fosse, — trasladado
Do ventre à sepultura!»
- O escasso número
Dos dias meus não será findo em breve?
Deixa-me pois chorar a minha mágoa,
Gemer coa minha dor antes que desça,
Para mais não voltar, à tenebrosa
Terra que a escuridão cobre da morte:
Terra de míngua e trevas, habitada
Pelas sombras da morte, — onde mais ordem
Que o sempiterno horror há i nenhuma. - 

VI

As vibrações da música, as palavras
Não menos forte, o lugar, a hora
A grinalda de rosas sobre o túmulo,
Porventura ignoradas circunstâncias
Que às sombras deste quadro dão relevo
Com mais fortidão n’alma, tudo a um tempo
No predisposto cérebro, de embate,
Violento abalo deu ao Lusitano.
Os cabelos na frente se ouriçaram
Como selva de lanças ergue súbito
Ao grito alarma em dia de batalha.
O coração parou-lhe, — e o corpo túrgido
Pesou sobre os joelhos, que vergaram
De golpe a terra. Do que sente ignaro,
E de sua fraqueza envergonhado,
Baixa o rosto, e se encosta à balaustrada
Do coro que por caso tem diante.

VII

Ou não sentiu, ou de sentir não mostra
A turbação que o espírito aliena
Ao companheiro seu, o missionário:
Junto dele ajoelhou, e em voz submissa
Ao Deus dos vivos e dos mortos ora.

VIII

Findava o canto lúgubre das preces:
Quatro enlutados cavaleiros sobem
Os degraus do moimento; da eça tomam,
Levam nos braços o ataúde, e descem.
Todo o cortejo, murmurando os psalmos
Das rogações extremas, se encaminha
Em passo lento a lateral capela
Que ornam vasados, góticos pilares
De mármore tão negro como as vestes
Dos enlutados vultos que os rodeiam.
Da procissão ao cabo, os anojados
Levam de uma das mãos o triste peso,
Coa outra sobre os olhos segurando
O usado emblema do dorido choro.

IX

Junto ao guerreiro ajoelhado, passa
O insensível objecto dessa pompa.
Fosse caso ou tenção, neste momento
Alevantando a face descaída
Coa vista no vizinho cavaleiro
Deu... estremece... ao ataúde os volve:
Já longe o levam; — mas viu inda escudo
De conhecido emblema no arremate.
Céus! que viu!... — A coroa d’alvas rosas,
Nesse instante um baloiço descontrado
Dos cavaleiros, a desprende, — rola por terra, e junto dele pára...
                                                             Avante
Foram: ninguém nessa grinalda atenta
Que desprendeu do féretro o acaso.
Acaso foi? — Mistérios há na campa
Que em tradições de séculos fundados
Me travam da razão: crê-los não ouso,
Mas desprezá-los... também não: — pensava
O atribulado, incógnito guerreiro...

X

O cortejo passou... — e a c’roa fúnebre
Ergueu convulsa mão, trémula a aperta;
E olhos, que desvairados a contemplam,
Parecem perguntar-lhe: — «Flor de morte,
Em que pálida frente hás tu pousado?»
Quem lhe há-de responder? Em breve a loisa
Se fechará, — como os ferrados cofres
Do avaro, onde nem lágrimas de aflitos,
Nem suspiros de tristes lhes aventam
Luz de esperança mínima. — Segui-lo,
Antes que o cerre a campa, esse ataúde
Em que talvez... Oh bárbara incerteza,
Terrível, cruelíssima! E terrível
A verdade será... Mas antes ela.
Corre ao sítio onde viu encaminhar-se
O funeral; o som das vozes segue,
Entra a capela escura. — Escuro é tudo;
Nem uma luz, nem um vivente. O baço,
Triste clarão da lâmpada que ardia
Longe no mor altar, só lá reflecte
Tanto de claridade quanto as trevas
Desse recinto fúnebre amostrasse.

XI

Foi sonho quanto viu! visão fantástica
Toda a funérea pompa, o canto, o féretro
E essa fatal grinalda!... Ei-la, na destra
Segura ainda a tem. — Escuta: uns ecos
Soterrâneos — como hinos de finados
Por note aziaga em cemitérios, se ouvem.
Inclina atento a orelha; um passo avante...
Tropeça... Em quê? — Numa revolta loisa.
Aberta está a porta do sepulcro.
Um ténue bruxelear de luz descobre
Na profundez do abismo; os degraus últimos
De húmida escada vê: descerá? — Desce:
Na estância entrou das gerações extintas.

XII

Terra esquecida aí jaz, aí moram cinzas
Por que em vão falam epitáfios, letras.
Sobre a face da terra que deixaste?
Que feitos de virtude ou de heroísmo
Tua passagem nela assinalaram?
Nenhum? Inteiro ao túmulo desceste,
Traga-te o olvido todo. Ergue obeliscos,
Amontoa pirâmides; — embalde!
Livra um mármore só do esquecimento:
É a memória do prestante feito
Que as idades lembradas vão guardando
De geração em geração na terra.

XIII

Ei-lo vai, entre as tácitas falanges
De enfileirados ossos caminhando
O atónito guerreiro; — ao cabo extremo
Desse arraial de mortos, dá cos olhos
No cortejo de dó que hóspede novo
Traz à morada eterna. A ponto o féretro
Ia baixar ao perenal encerro
Donde o não moverá senão a tuba
Terrível, quando o sol se erguer do oriente
A dar a extrema luz ao dia extremo.
Dobra o passo; inda é tempo. Argêntea chave
Laçada em fumo negro, um cavaleiro
Tinha na mão: o mais ilustre esse era
Ou o mais anojado: — uso sabido,
E venerada prática dos nossos.
Pela derradeira vez olhos de vivos
Verão a face lívida do morto
Que ao final poiso desce. Despedida
Solene! E que expressão há i na terra
Em língua d’homens, que translade ao vivo
Todo esse acumular de sentimentos
Que em si de tal instante o adeus encerra!

XIV
Já vacilante mão abre o ataúde...
Amortalhavam cândidos vestidos
O corpo ainda airoso duma dama
Não morta no botão d’anos viçosos,
Mas na desabrochada flor da vida,
Tão delicada não, porém mais bela.
Velada a face tinha; mas conhece-a...
Quem? o guerreiro... quem? o seu amante.

XV

Céus! ele mesmo, ele! — Precipita-se
Sobre o cadáver... ergue o véu... — «Natércia!»
— «Natércia» d’eco em eco repetiram
Os ecos dos moimentos, acordados
Do sono sepulcral. Estremeceram
Os do cortejo, e atónitos contemplam
O incógnito. — «É ele» uma voz disse;
— «É ele» em torno remurmuram  todos.


XVI

O sangue ao coração atropelado
Recuou, estagna-se, e parou da vida
As funções todas ao guerreiro; — em terra
De mortos semimorto fica. Entanto
Deu a volta fatal e derradeira
A chave do ataúde; cai a laje.
Sobre a boca do túmulo. — A existência
Se esvaeceu... começa a eternidade.

 

 

 

                                 CANTO TERCEIRO

 

          Por meio destes hórridos perigos,
          Destes trabalhos graves, e temores
          Alcançam os que são da fama amigos
          As honras imortais e graus maiores 
                                            
                                        
 Lusíadas

I

— «Ah! meu senhor... bem o disse eu: mal trazem
Vistas de mortos.»
— «Sossegai, amigo;
Deixai-o repoisar: sono propício
Já lhe acalmou o sangue; e mais tranquilo
D’ânimo acordará.» — Submissas vozes
Murmuravam assim em baixo acento
Junto do leito em que prostrado e plácido
Por benigno Morfeu jaz o guerreiro.
De roxas violetas se toucava
No horizonte primeiro o alvor do dia,
E a claridade ténue da arraiada,
De estreita fresta os vidros penetrando,
À morredoura luz de exausta lâmpada
Vinha juntar sua luz na humilde cela
Onde este curto diálogo passava.


II


Pranchas de escuro til, rudo lavradas,
Do aposento as paredes guarneciam.
Sobre uma banca de igual custo e obra
Poisava antiga cruz donde pendia
Agonizando o Cristo: lavor fino
Que no índico dente a mão devota
Dum neófito d’Ásia executara,
E fora dom do grato catecúmeno
Ao que nas águas místicas do Ganges,
Por novo rito e lei, lhe consagrara
Antigas abluções. Único um livro
De pesado volume ao pé do lenho,
O livro dos cristãos: dois férreos broches
As grossas pastas fecham. Pende, a um lado
Da parede, enfumado, antigo quadro
Que os rudes traços do pincel recorda
De Perugino ou Vasco, à infância da arte:
Em cujo parecer traslado brando
Deram tintas fiéis dessa virtude
Que o filósofo disse humanidade,
Caridade o cristão. — Dispute em nomes
Quem de palavras cura: o homem sincero

Sem vaidade de língua, obra e não fala.
Pintado estava ali um nobre velho
Que a angélica beleza de sua alma
Toda tinha no rosto retratada.
Alvo-negro saial o ancião vestia;
Junto dele, de penas variegadas
Cingido a frente e rins, imberbe um homem
De brônzea tez, jazia malferido.
Convulsa dor em contracções se exprime
No requeimado gesto; mas nos olhos,
Se é lágrima essa nuve’ imperceptível
Que rara os cobre, — não lha choram dores
Mas de sensível gratidão desliza.
Letra o painel não tem; mas claro amostra
Novo Tobias no hemisfério novo.


III

Do habitador da cela amigo e mestre
Las Casas fora, quando guerra injusta
Seu braço, d’ímpio ferro outrora armado,
Levou cruel aos povos mal defesos
Que ajoelhavam pávidos, devotos
Ante homens numes, dos trovões senhores.
De tal amigo o comoveu o exemplo.
Pensada reflexão, não voto incauto,
Extorquido à fraqueza ou cega infância,
Lhe trocou no burel o azero e malha.


IV

Mas já no leito o adormecido acorda.
Seus mal abertos olhos se descerram
Ao primeiro luzir do sol, que é nado
Neste momento, agora: froixamente,
Mas não turbados, derredor os volve
Pelo aposento. Como quem se afirma,
Um e outro dos dois que o acompanham
Fita admirado, e a modo que procura
Reconhecer feições que há visto a alguém
Com vagarosa mão correndo a frente
Uma vez e outra vez, dá parecenças
De querer ajudar o envolto cérebro
A desligar ideias mal distintas.

V

Assim ao que tomou gelado espasmo
Toda a aparente vida, os membros rijos,
Sem cor os lábios, preso o sangue... é morto:
Ergue-se o carpir d’órfãos, da viúva...
Já no sudário envolto, já nas andas
Os doridos amigos o conduzem
À morada dos findos... Repentino,
Do coração começa o calor vivo
A devolver-se, manso e manso, às veias;
Longes de esvaecida cor lhe tingem
Os beiços... pestaneja froixa a pálpebra...
Abre os olhos... que atónitos duvidam
Se inda é mundo o que vêem. — Tal contemplava
Com pasmado semblante os que o rodeiam
Do castelhano cenobita o hóspede.

VI

Risonho, e com sossego apropriado
A sossego inspirar, lhe disse o monge:
— «Bons dias, cavaleiro; em pobre cama
Ricos sonos se dormem — diz o adágio,
E hoje o provastes bem. O sol já nado
Convida a erguer-vos; e este sino, que oiço,
Às preces matinais me chama ao coro.
De refeição tereis mister; sadia,
Se não mui esquisita, vou buscar-vos.
No entanto levantai-vos: pouco tempo
Do vosso Jau fiel na companhia
Vos deixarei: não tardo.»
                             — «E aonde... estamos?
Não me recordo...»
                  — «Estais em casa amiga.
A nossa cela é esta: sossegai-vos.
Atribulado há sido vosso espírito:
Inseparável condição da vida
Padecimentos são; todos penamos.
Mas a constância é a virtude do homem.
E a paciência a do cristão. Mais largo
Conversaremos logo: a dor do peito
Quer-se desabafada em peito amigo.
Por ora conservai tranquilo o ânimo:
Breve aqui sou.»


VII

                                   E cobre o manto, e parte.
O silêncio o seguiu; e o tardo piso
Apenas se escutava das sandálias
No longo dormitório ressoando.

 

VIII


— «Devo», dizia o incógnito guerreiro,
Quando, à volta do coro, com seu hóspede,
Leve repasto da manhã tomavam:
«Devo a tão bondoso e terno amigo,
Às solícitas penas e cuidados
Que vos hei dado, confissão sincera...
Quero explicar-vos o sucesso estranho
Que ontem presenciastes; — e do escândalo,
Se a meu pesar o dei, perdão vos peço.»
— «Demasiado avaliais fracos serviços.
O segredo é a rica jóia d’alma,
Que não se mostra assim a olhos de todos.
O coração é cofre precioso
De que, raro, confia homem prudente
A chave a seu mais íntimo. Guardai-vos
De baratear assim o ouro cendrado
Da amizade fiel (confiança entendo)
A qualquer que sorrindo vos estende
Talvez curiosa mão, que não de amigo.
Em barda os achareis... — oh! perdoai-me,
Sou velho, e pronta sempre a dar conselhos
É minha idade — se prestar-vos pode
Este nada que valho, se ajudar-vos
De obra ou de aviso imaginais que posso,
Ouvir-vos-ei de gosto e de vontade.
Sou vosso amigo, sou: provas nenhumas
De mim tendes; mas Deus, que une as vontades,
E a quem prouve no peito gravar do homem
Esse invisível quê, essa lei mística
Que atrai o coração dum ente ao outro,
Deus sabe se, de quando em Moçambique
Vos conversei primeiro, senti n’alma
Não sei que voz dizer-me: — «Segue esse homem,
Deves amá-lo, é infeliz e honrado.»

 

IX


Do Lusitano ao descorado gesto
Esvaecido rubor assoma, — e foge,
Qual foge aos olhos o lampejo rápido
Da trovoada longínqua. — Um tanto a face
Descaiu sobre o peito amargurado,
E com voz, firme não, porém serena,
Disse: — «Luís de Camões tinha um amigo
Único só na terra. — Não te escondas,
Meu fiel companheiro: um feito honrado,
Generoso te peja? — O pobre António
Foi até aqui, senhor, o único vivo,
Único ser na face do universo
Em quem meu coração achou abrigo.»

 

X
 
Pelas faces do escravo, baga a baga,
Enternecidas lágrimas caíam,
E peito sufocado comprimia
A custo grande o soluçar que o arfava.
Não pode mais: aos pés se deita do amo,
E sem conter o choro:
                              — «Oh! não me digas
Não me digas, senhor, que sou amigo.»
«Não o digo! Porquê?»
                     — «Porque isso parte
O coração do escravo. Amigo é falso.
Os de Macau, de Goa e Moçambique,
Todos faltaram; e eu fui sempre...»
    Corta-lhe
Um mar de pranto a voz.
                      — «Tu foste sempre O meu fiel António».
                           Humedeceram-se
Os olhos do guerreiro; e como a efeitos
De simpático influxo, ao velho austero
Pelas rugas das faces deslizaram
Gotas de suave, enternecido pranto.


XI

Serena a reflexão comoções d’alma.
O Lusitano continua: — «Certo
Que hás dito bem: tão profanado e abjecto
De amigo o santo nome hão posto os homens,
Que mal sei eu se injúria ou honra é ele.
Parou aqui, como assombrado n’alma
Da amarga observação. Depois, volvendo-se
Menos aflito ao missionário, disse:

— «Embora! pois que enfim tenho encontrado
Consolação tão doce a minhas mágoas.
O meu nome — inda mal! bem conhecido
Por esse novo império do oriente —
É Luís de Camões. Em tenros anos
Ânsia ardente de glória e de renome,
Porventura outra causa mais violenta,
Mais nobre... e mais funesta — me levaram
Às africanas praias, dura escola
Da portuguesa mocidade. Alegre,
Que me sorria então verde esperança
No enganoso porvir, — entrei os muros
Da veneranda Ceuta, insigne preço
De sangue régio e dum martírio ilustre.
Paternas mãos as armas me cingiram.
Oh! pai tinha eu ainda... Honrado velho,
Na vereda da honra me puseste;
Fui, como tu, caminho da desgraça.

 


XII


«Ah! se um filho que há visto na batalha
O paterno valor, que ouve entre a grita
Aquela voz que o acariciou na infância,
Bradar-lhe: «Avante!» — aquele braço amigo
Que o embalou nos dias da inocência
A apontar para a estrada da vitória;
Oh! se a tal homem covardia pode
Entrar no peito vil... Não é possível.
Eu aprendi a combater com ele,
Lembra-me o dia — porventura o máximo
De minha vida, se ontem, se outro ainda
Nos de minha existência não contara —
Quando no Estreito a barbaresca frota
Nossas naus vitoriosas derrotaram.
Era a minha primeira lição d’armas.
Foi a primeira vez que o mauro alfange
Por d’ante os olhos me cruzou coa morte.
Junto a meu pai — à frente o viram sempre...
Sobre o imigo baixel a pano cheio
Caía a nau de seu comando... Um silvo
De peloiro soou. — Mirado a ele
Certeiro mouro tinha. — Estendo o escudo...
Movimento feliz! salvei-lhe a vida.
A bala resvalou, — e já sem força,
Leve aqui me feriu na sestra face,
E fria aos pés me cai.»
 — Leve ferida
Quem um dos olhos!...
 — «Oh! dois nos há dado
Liberal natureza. — Que vale isso!
Salvei meu pai.»

XIII
                        
«Voltei por fim à pátria
Outra vez de esperanças iludido.
Alguns serviços, por benignos chefes
Exagerados sim, mas não mentidos,
Nada obtiveram, — nem o esquecimento
De um inimigo cru, jurado, injusto,
Que jamais o ofendi, jamais. — Se é ofensa
Ter olhos para ver a formosura
Coração para a amar, alma de fogo
Para mandar aos lábios anelantes
Faíscas desse amor; se o dom da lira 
(Di-lo-ei funesto ou chamar-lhe-ei ditoso?)
Que me outorgara o céu, votei às aras
Desse amor que foi única ventura
De minha vida, — única, inocente
Causa de meus acerbos infortúnios,
E agora...»
Sobre o peito a destra aperta,
Como em chaga dorida a mão do enfermo
Para acalmar a dor; pendeu-lhe a frente
Para o seio agitado. Instantes breves
As mostras de aflição se patenteiam.

 

XIV


— «Se é crime» continuou «ter alma e vista,
Foi essa a única ofensa que lhe hei feito
Ao vingativo conde. Por má sorte,
Laços fatais de sangue lhe prendiam
De meus suspiros o adorado objecto.
O nascimento igual, a igual fortuna,
Tudo por mim, tudo por nós falava.
Cobiça empederniu seu duro peito:
E o soldado só de honra herdeiro rico
Que podia esperar? Seu vão orgulho
Se envileceu, de baixo, a perseguir-me.


XV


«Nada na corte obtive contrastado
Por tão forte inimigo, eu sem fortuna,
Sem arrimo, sem pai. — Como eu, perdido
Entre o obscuro tropel dos desvalidos
Que o sangue pela pátria hão barateado
Para perder à míngua o resto dele,
Meu pai, de pura mágoa e de despeito,
Fenecera em meus braços. — Só no mundo,
Que me restava? Perecer como ele,
Ou por um nobre feito despicar-me,
Vingar a afronta duma pátria ingrata.

 

XVI

«De tais ideias combatido o ânimo,
Um dia às margens do formoso Tejo,
Curtindo acerbas dores, passeava,
E os olhos desvairados estendia
Por essa majestade de suas águas
Coalhadas de baixéis que as ricas páreas,
Que os tributos do oriente vêm trazer-lhe
Andando, meu espírito agitado
Se enlevava nas glórias, nos prodígios
Que a tão pequeno canto do universo
A metade da terra avassalaram.
Transportava-me o ardente pensamento
Aos palmares do Ganges envergados
De troféus portugueses; via o nauta
Que ousou galgar o Tormentório cabo,
E nos balcões da descoberta aurora
Hasteou as Quinas santas. Retiniam-me
Nos trémulos ouvidos os trabucos,
Que, a golpes crebos, as muralhas prostram
Do rico Ormuz, da próspera Malaca,
E da soberba Goa, empório novo
Do novo império imenso. Ajoelhados
Via os reis de Sião e de Narzinga
Aos pés do vencedor depor os ceptros,
E render, suplicantes, vassalagem
Ao ferro lusitano. Os nobres muros
Vi de Diu estalar, saltar aos ares
Por infernal ardil; e entre as ruínas
Dos inflamados bastiões, — dispersos
Os palpitantes membros desse filho
Por quem não correm lágrimas paternas;
Não, que mártir da pátria é morto o filho.


XVII

Desse pai venerando — esse Fabrício
Da lusitana história, renovando
Sob os arcos triunfais da ínclita Goa
Altas pompas de Roma, e altas virtudes
Que só geraram Lusitânia e Roma! —
De Vasco, de Pacheco, de Albuquerque
Inflamavam num êxtase de rapto
Meu peito português memórias grandes.
Quem tais milagres d’heroísmo e de honra,
Quem tanta glória a tão pequeno berço
Foi tão longe ganhar? Quem a um punhado
De homens, à mais pequena nação do orbe
Deu mares a transpor, veredas novas
A descobrir na face do universo;
Povos a subjugar, reis a humilhá-los,
Ignotos mundos a ajuntar ao velho.
E, a dilatar-lhe a superfície, a terra?
Eles. — E a pátria, por quem tanto hão feito,
Que digno prémio lhes há dado? — A fome
Num hospital galardoou Pacheco;
A Albuquerque a desonra ao pé da campa;
Castro a pobreza, que os socorros últimos
Sobre o leito da morte mendigava.

 


XVIII

«Ingrata... Ingrata pátria! — Fatigado
Como de tanta glória e tal vergonha,
Parei. Junto me achava então do templo
Que a piedade e fortunas apregoa
De Manuel o feliz; padrão sagrado
De glória e religião, esmero d’artes
Protegidas dum rei que soube o preço
— Alguma vez ao menos — ao talento,
À lealdade, ao valor, ao patriotismo.
— Nem sempre; mas tão pouco de virtude
Basta num rei para esquecer-lhe os crimes!


XIX


«Aberta em par do templo estava a porta;
Entrei. Naquelas pedras animadas
Por cinzel primoroso se pasciam
Meus olhos admirados: as erguidas
Colunas, as abóbadas altivas,
As palmas, as cordagens enlaçadas,
E o sinal santo que as remata e une,
E que por toda a parte está marcando
As vitórias do Lenho triunfante,
O vexilo da glória portuguesa,
Nunca, nunca tão alto me clamaram
Que sós sem Deus, sós pelo esforço humano
Não fariam jamais os portugueses
O que hão feito no mundo... Dei co túmulo
De custoso lavor que aí resguarda
As cinzas do monarca afortunado.
Afortunado em vida; — a morte, fecha-lhe
Selo do Eterno os lábios descarnados:
São segredos de Deus os do sepulcro.
Mais cansado que pio, ajoelhei-me
Sobre os degraus do túmulo; insensível,
No recostado braço a frente inclino,
E descai num lânguido delíquio
Que nem morte, nem sono, mas olvido
Suavíssimo é da vida. Sono embora
Lhe chamaria, se as visões tão claras,
Mais rapto d’alma em êxtase sublime
Que imagem vã de sonhos, as não visse.
Talvez seria natural efeito
De agitados sentidos, porventura
Mui crédulo serei... mais alta causa
Do fenómeno estranho então a tive.


XX


«Oh! sonho não foi esse. — Afigurou-se-me
Ver do moimento erguer-se um vapor leve,
Raro, como de nuvem transparente
Que mal embaça o lume das estrelas
No puro azul dos céus: — foi pouco a pouco
Condensando-se espesso, e longes dava
De humana forma irregular — qual soem
Ao pôr do sol fantásticas figuras
As nuvens debuxar pelo horizonte.
Logo mais certas, mais distintas formas,
Qual mole cera em mãos d’hábil artífice,
Tomando foi. Já claro ante mim era.
Roupas trajava alvíssimas e longas;
Seus braços de extensão desmesurada,
Um sobre o peito co índice apontava
Ao coração, que as vestes resplendentes
Transparecer deixavam. Viva chama,
Como luz de carbúnculo, brilhava
Na víscera patente; e em radiosas
Letras lhe soletrei: Amor da pátria.

 

XXI


«Da maravilha como por encanto,
Sem receio ou terror a contemplava,
Quase por tal prodígio enfeitiçado;
Quando estes sons, entre áspero e suave,
Mas solenes ouvi: — «Jovem ousado,
Grande empresa te coube, — acerba glória,
De que não gozarás! Desgraças cruas
Fadam teus dias... Mas a fama ao cabo.
A Pátria, que foi minha, que amei sempre,
Que amo inda agora, grão serviço aguarda
De ti. Um monumento mais durável
Do que as moles do Egipto, erguer-lhe deves.
«Pirâmide será por onde os séculos
«Hão-de passar de longe e respeitosos.
«Galardão, não o esperes. — Fui ingrato
«Eu, fui! Ingrato rei, ingrato amigo.
«E a quem! — Maiores de meu sangue ainda
«Ingratos nascerão. Tu serve a pátria:
«É teu destino celebrar seu nome.
«Os homens não são dignos nem de ouvi-las,
«As queixas do infeliz. Segue ao oriente,
«Salva do esquecimento essas ruínas
«Que já meus netos de amontoar começam
«Nos campos, nos alcáceres de glória
«Preço de tanto sangue generoso.
«Um dia... Em vão perante o excelso trono
«Do Eterno me hei prostrado; irrevogável
«A sentença fatal tem de cumprir-se —
«Um dia inda virá que, envilecido
«Esquecido na terra, envergonhado
«O nome português... Opróbrio, mágoa,
«Dura pena de crimes! — tábua única
«Lhe darás tu para salvar-lhe a fama
«Do naufrágio. Tu só dirás aos séculos,
«Aos povos, às nações: Ali foi Lísia
«Como o encerado rolo sobre as águas
«Único leva à praia o nome e a fama
«Do perdido baixel. — Parte. Salvá-lo!
«Salvá-lo, enquanto é tempo! — Extinto... Infâmia!
«Extinto Portugal... Oh dor!...» — Rompeu-lhe
O derradeiro acento destas vozes
Em som de pena tal e tão tremendo,
De tão profunda mágoa, que inda agora
Nos cortados ouvidos me ribomba.
Estremeci, olhei; já nada vejo:
Ou acordei, ou a visão se fora.


XXII


«Dir-vos-ei que serena a mente e plácida,
Que as ideias distintas conservava,
Não é como d’uso ao despertar dum sonho?
Fé não me prestareis: mas em minha alma
Tão claramente li como um reflexo
De inspiração maior que humana coisa,
Que, sem hesitar mais, sem um momento
De incerto duvidar, assentei firme
No pressuposto de seguir meu fado,
E às descobertas plagas do oriente
Ir demandar essa escondida sorte,
Esse feito, essa glória prometida
De engrandecer o ninho meu paterno.
Uma só coisa — confessá-lo é força,
Mas que dizê-lo peje — acobardava
A tenção resoluta. Ir mar em fora
A terras lá tão longes, e deixá-la,
Deixá-la... e sem esp’ranças, nem ao menos
De inda a tornar a ver!... Sabeis quem digo;
Poupai-me a dor de proferir seu nome.
Dura e ferida n’alma se travavam
Batalha, amor e pátria. Amor vencia
Quase... não triunfou...»

 

XXIII


Aqui chegava
O contar de sua história, quando à porta
Da cela redobrados golpes batem.
O missionário abriu; um pajem moço
E de custoso dó ataviado
Uma carta fechada a fio negro
De seda traz.
 — «Um cavaleiro busco
Ontem da Índia vindo.»
 — «Ontem chegaram
Os galeões da frota: cavaleiros
Muitos viriam.»
 — «Santa Fé se chama
O galeão; e o cavaleiro... Lede.»
Do pajem se aproxima o Lusitano
Da inesp’rada mensagem curioso.
No sobrescrito leu que assim dizia:
A Luís de Camões — logo Escudeiro;
Mais abaixo — Em mão própria.
 — «Entregai, pajem: Sou esse. De quem vem?»
 — «De quem não manda
Mais palavras que as letras vos não digam.» -
Corteja e parte logo. — Que será?

 

                                       CANTO QUARTO

 

          Já a vista pouco e pouco se desterra
          Daqueles pátrios montes que ficavam;
           ................................................
          Ficava-nos também na amada terra
          O coração, que as mágoas lá deixavam
          E já, depois que toda se escondeu.
          Não vimos mais enfim que mar, e céu.

                                               Lusíadas

I

— Quem não teme ir de encontro a seu destino,
E provar-se homem... nas desertas rocas
Do castelo mourisco, sobre a serra
Da Lua, achará prémio, o maior prémio!
E castigo também de sua audácia.
Amanhã no expirar da luz.» — A carta
Mais não dizia. — «Qual estranho enigma!
Prémio, castigo a mim!... A mim! Duvidam
Se tenho coração!... Exigem provas!
Quem? Para quê... Irei? Porque não?... Vamos.
Espera-me talvez a hora querida
Da vingança... Amanhã?... Amanhã!... hoje.

 

   II

— «Irei sim» rompe o vate, continuando,
Alto, o discurso que até’li na mente
Consigo meditando revolvera,
«Irei sim. Não achais que devo, amigo?»
— Deveis o quê?
           «Ir».
     — Onde?
 — «Onde é meu fado.»
— Quereis dizer à corte? Ouvi que a Sintra
Se fora el-rei com o conselho e cabos
Principais do exército. É voz pública
Que hão-de aí resolver graves projectos
De alta valia: mas...
 — «E que me importa
A mim corte e conselho? Outros motivos
Tenho, outras razões...»
 — «Tenhais embora.
Mas, já que estais na corte, ou perto dela,
Avisado seria aproveitar-vos
Da ocasião. Por boca anda de todos
Que do jovem monarca se prepara
Nova jornada às costas africanas.
Em bem o fade o céu!»
 — «Dizem-no? É certo?
Um mancebo inexperto, única esp’rança
Do reino, que, inda mal! já tanto inclina
Da primeira grandeza! — Ah! confiança
Tenho que inda haverá nesse conselho
Um português que português lhe fale,
E com a respeitosa liberdade
Que é nossa natural e um bom rei preza...
Preze ou não, deve ouvi-la: mau conselho
Dará sempre o que, ao dá-lo, se arreceia
Da verdade que diz. — É tarde, é tarde;
Fomos, não somos já.» Continuaram
Em práticas iguais os dois amigos;
Mas o Luso, a quem n’alma se alevantam
Ideias que as da pátria suspenderam,
Dest’arte diz — «Amigo, um dever triste
Me chama, a quê não sei: cobre-o mistério
Com véu impenetrável. Minha vida
Toda há sido de estranhas aventuras.
Quem sabe? — acabará por esta agora.
É de fracos temer, mas de prudentes
Acautelar-se é lei. Meu haver único,
Todos os meus tesouros são um livro.
Pouco valor, — nenhum tem porventura;
Mas de longas fadigas, do trabalho
Da vida inteira é fruto. Escrito em partes
Com lágrimas há sido, e bem pudera
Com sangue em muitas. Sobre os calvos serros
Das montanhas, nos vales deleitosos,
No campo em tendas, na guarita em praças,
No mar entre o arruído das procelas,
Ao dos grilhões nos cárceres — contínuo,
Incessante, indefesso hei trabalhado
Para levar ao cabo a empresa ardida
Deste livro que tanto me há custado.
Já náufrago nas águas desse rio
Onde tudo perdi, de um braço a vida,
Nadando, às ondas confiei revoltas,
Para no outro o salvar. — Este depósito
Em vossas mãos confio. Se mais novas
Não houverdes de mim... quem sabe? acaso
Útil poderá ser à minha pátria.
Ela, e o seu amor, todo o inspiraram,
À sua glória inteiro é consagrado.»

— Tão longa viagem, tão p’rigosa é essa?
«Longa não; perigosa... Eu sei? Não, certo.»
— Quando intendeis partir?
 — «Eu? esta noite.»
— Assim que, em nada mais servir-vos posso...
Nem já de vossa história interessante
Ataremos o fio?»
«Oh sim: nem longo
Será ele.»
Suspenso alguns momentos,
Como buscando, entre outras, uma ideia
No tumulto confusa, assim prossegue:


III
 

— «Falei-vos, se a turbada fantasia
Me não engana, da tenção tomada
Por quase inspiração — vão sonho acaso.
Com pensamentos tais saí do templo:
Escondia-se o sol d’além dos montes
Da outra margem do Tejo: alva e sem lume
Parecia no azul dos céus tranquilos
Infante a lua, como o arco ebúrneo
Que ao nume que nesse astro afiguraram,
Deram antigos vates. Mais sereno,
Mais belo pôr do sol jamais o hei visto
Nos desvairados climas decorridos
Em minha incerta vida. Ao longo vinha
Da solitária praia respirando
A fresca viração que mal das águas
Leve encrespava a superfície apenas;
Uma voz me chamou, — voz que em meu peito
Ouve inda o coração — voz doce e meiga,
Que nunca mais... oh! nunca mais na Terra
Escutarei dos vivos... — volvo o rosto:
De baixa gelosia me acenava
Com um cândido véu, mais nívea e cândida,
Formosa e breve mão. Flutuando ao vento
O véu caiu, e a dextra desaparece.


IV


«Ergui-o palpitando: um nó o atava.
Trémulo o desabrocho — era oiro puro,
Oiro daquelas tranças tão queridas,
Rica jóia d’amor. Coa doce prenda
Vinha um bilhete: abri-o, li: — «Roubado
Foi este instante a bárbaros tutores.
Insensatos! vigia mais do que eles
Amor, que pode tudo. A minha glória,
Pu-la em teu coração; minha ventura,
Minha vida, o meu ser de ti confio.
Parte — é força partir... — Ausência dura,
Separação cruel só pode unir-nos.
Sai a frota amanhã; vai alistar-te.
Campo no oriente a grandes feitos se abre.
Volta com nome tal que tudo vença
Eu viverei de lágrimas... — Embora.
Matar-me-ão saudades... Não, não hão-de.
Ver-me-ás ainda; um anjo ontem mo disse
Num sonho tão feliz! — Era eu vestida
De riquíssimas galas... e alva c’roa
De rosas me toucava... tu a um lado,
Triste — não sei porquê, outros de luto:
Não me admirou, que nosso amor não querem.
E o anjo assim me disse. E mais, que um dia
Tamanho se fará teu nome e glória,
Que encha o universo. — Vai: adeus!... Terrível,
Amargo adeus é este... Não importa.
Parte... e jamais te esqueças...»

 

V


«Uma lágrima
Delira o mais das letras; — quente ainda
A senti no papel... — Mudo e sem vida
Horas longas fiquei parado, extático,
No coração a carta, os olhos fitos
Na avara gelosia. Alta ia a note;
Água acima passava uma falua:
Bradei, acodem, a Lisboa volto,
E ao outro dia, na maré da tarde,
Da popa dum galeão via fugindo
O Tejo, as suas ribas deliciosas
Depois a terra; — alfim o céu e as águas
Sós com minhas tristezas me ficaram.


VI


Próspero o vento foi. Por esses mares
Que humana geração jamais abrira,
Seguindo fomos o atrevido esteiro
Do grande Vasco. À sestra nos ficavam
As mauritanas várzeas tão regadas
De sangue luso. Vimos a frondosa.
Vicejante Madeira, a primogénita
De nossas descobertas, e a mais bela
De quantas pelo Atlântico dispersas
O generoso Henrique adivinhara.
Massília estéril, e os queimados serros
Donde o Sanagá negro se despenha,
Passámos, o Arsinário cabo vendo,
Que Verde em seu extremo apelidámos.
Vimos também as Fortunadas ilhas,
E entrando as que d’Hespério o nome tomam,
As orientais costas africanas
Rodeámos de Jalofo e de Mandinga,
Donde o curvo Gâmbia ao Tejo manda
As ricas páreas do caudal luzente.
As Dorcadas passámos, que dos silvos
Das víboras na areia inda retinem:
Crespas tranças outrora que inflamavam
O cérulo Neptuno. Ao austro a proa,
No imenso golfo entrámos, transcorrendo
A Leoa serra aspérrima, e o cabo
Que dissemos das Palmas, e a frondente
Ilha que do incrédulo discípulo
O apelido tomou. Ali a fértil,
Vastíssima região que lava o Zaire,
Ganha por nós à fé, e conquistada
Por armas só de paz. Assim transposto
O que divide o mundo, ardente término,
À dextra nos ficava a plaga imensa
Não sonhada de antigos sabedores,
Por onde o velho mundo dilataram
Os nossos e os que após dos nossos foram:
Que ousar e perfazer tamanho feito
Fora a humanos esforços impossível
Se o braço português não ajudasse.

 

VII


«O astro novo, não visto d’outra gente
Antes que o luso nauta lho amostrasse,
Já no hemisfério oposto nos brilhava.
Víamos-lhe essa parte menos bela
Onde raras estrelas pasce a pólo!
Ali, pesar de Juno e de seus zelos,
Vimos banhar nas águas de Neptuno
As inflamadas Ursas. Pelos topes
Dos mastros, e no horror da tempestade,
Claro avistámos a azulada chama
Do santo, vivo lume. Oh! recontar-vos
As maravilhas tantas, os prodígios
Que hei visto, longo fora; e conhecidas
Serão elas de vós que os largos mares,
Que as vastíssimas plagas descobertas
Pela nobre ardileza lusitana
Corrido haveis também. Destas paragens
Velas demos ao noto que soprava
Rijo, em vão, contra a força descontrada
Da impetuosa corrente. Ia uma note
Na cortadora proa vigiando,
Quando atra cerração medonha e feia
Nos fecha o claro céu; amaina o vento,
E em tanta escuridão batendo as velas
Em podre calma, à pavorosa cena
Dobram tremendo horror. — O mar ao longe
Dá longos, ocos brados que rebramam,
Como se desse em vão nalgum rochedo.

 


VIII

«Éramos cerca do famoso cabo
A que mudou boa esperança o nome
Que primeiro lhe demos, das tormentas.
Ao pensar em tão ásperas fadigas,
Tanto sangue perdido, tanta morte,
Tanto naufrágio cru, desgraças tantas
Que a dobrar esse cabo nos custaram
Para ir edificar sublime império,
Novo reino entre gentes tão remotas,
Se me alargava o coração no peito,
Vendo-me português. E é pois tal feito
Feito d’homens?... — O vento repentino
Soprou, rasgaram-se as fechadas nuvens,
E retremeu nos mares o estampido
Dum trovão temeroso. Alheada a mente
Na majestade da procela horríssona,
E em tamanhas ideias confundida,
No ar se me afigurou troar de irada
A potestade imensa d’algum génio
Que os cancelos do oriente ali guardasse;
Cuidei ver a grandíssima estatura
De disforme gigante a quem as chaves
Confiara d’Ásia o árbitro do mundo,
E que de tanta audácia portuguesa
Irritado, ao primeiro que franquear-lhe
Assim ousou seu passo tão defeso,
Da boca negra, e pálido de cólera,
Fatídico dissesse — «Ó gente ousada,
«Mais que tantas no mundo hão cometido
«Empresas grandes, não te basta o mundo
«D’homens sabido para tantas guerras,
«Tais e tão cruas, com que, tão pequenos,
«Fatigais o universo? De tão longe
«Vindes quebrar meus términos vedados,
«A demandar em regiões ignotas
«Onde cevar essa ambição de glória,
«Essa implacável sede de conquistas
«Que no inquieto peito vos referve?
«Acabareis por fim coa empresa ardida;
«Sim, vencereis; mas a vitória cara
«Tem de custar-vos. Inimigo eterno,
«Aqui em meu tremendo promontório
«Vos espero; aqui áspera vingança
«De quem me descobriu tomarei. — Morte.
«Morte é o menor dos males que vos guardo.
«Nem da beldade as lágrimas formosas,
«Nem suspiros d’amor, nem ais carpidos
«De maternal ternura hão-de amolgar-me...
«E não se acabará só nisto o dano;
«Antes por vossas mãos o mor castigo
«Recebereis: do império cimentado
«Com tanto sangue e com virtudes tantas
«(Breve as heis-de perder) medonhos crimes,
«Devassa tirania, infandos vícios,
«Superstição cruel minarão cedo
«Os nobres fundamentos. Aluído
«Baqueará por terra o sólido altivo
«Que sobre as ruínas erguereis dos povos.
«Vis descereis pelos degraus do vício
«Do trono a que a virtude vos alçara.

 

IX


— «Assim na extasiada fantasia
Um eco misterioso me soava:
Di-lo-ei presságio triste em já grã parte
De seu fadar cumprido!...
«Enfim dobrado
O imenso, proceloso promontório,
Vogámos, longo, os mares interpostos
Que do índico lago aquém separam
As requeimadas costas africanas.
Saudámos a dura Moçambique,
Porta do Oriente que a Ásia lusitana
Parece unir aos áfricos domínios,
Por onde, desde a Europa às partes quatro
Se dilatou o português império.


X

«Do longo navegar alfim ao termo
Desejado chegámos; da soberba
Cidade d’Albuquerque os muros entro.
De sobressalto o coração batia-me
Ao pisar essas praias que o triunfo
Viram do forte Castro. — Aqui da guerra
No duro trato, ora ao Gentio rudo,
Ora ao pérfido Mouro combatendo,
Longo continuei; porém do Marte
Português quão diversa é hoje a sorte!
Não glória já, mas frívolas contendas,
Injustas opressões nos arrancavam
A preguiçosa espada da bainha.

 

XI

«Cheia a imaginação do misterioso
Sonho ou visão que, no moimento sacro
De Manuel, me incendiara a fantasia,
Embalde aos p’rigos, ao furar das ondas,
Ao mais cru das batalhas me arrojava.
Se era meu fado a glória, mais potente
Foi que o meu fado a inveja de inimigos,
Ódios, perseguições. — Já malferido
De eiva de morte arqueja o império d’Ásia.
Os devassos costumes, a impiedosa
Sede de mando, a sórdida cobiça
Dos ministros da lei, e até — sincero,
Franco é meu discorrer, e em mal! bem certo...
Dos que, indignos do altar, o altar profanam
Com sacrifícios bárbaros de sangue,
A um Deus só de paz e de bondade,
Em vez do puro incenso de virtudes,
Negro vapor de pálidos cadáveres,
Suspiros da viúva, ais do órfão triste,
Lágrimas, sangue e morte oferecendo...
Tudo, a golpes contínuos, redobrados,
Vai prostrando o glorioso monumento
Dos Pachecos, dos Castros e Albuquerques.
Qu’é desse esp’rito que animava os fortes?
Qu’é desse vivo ardor de fama honrada
Que faiscava em lusitanos peitos,
E a arriscadas acções, a empresas grandes,
A mais que humanos feitos os levava?
Extinguiu-se, acabou. Já fomos Lusos;
Fomos: — de nossa glória o brado ingente
Breve será clamor que geme longe,
Como voz de sepulcros esquecidos
Balda soando no porvir que a ignora.

 

XII

«Que me restava a mim, que me era dado
Em tal descaimento, em tal baixeza,
Cometer, perpetrar? — Inúteis p’rigos
Em guerras mais inúteis, cicatrizes
Mal prezadas de quem valia ignora
Do sangue desparzido em prol da pátria
Que podiam valer-me? De indignado
Ergui a voz, clamei contra a vergonha
Que o nome português assim manchava,
Esconjurei as sombras indignadas
Dos heróis fundadores dum império
Que tão bastardos netos destruíam.
Em vão clamei; minhas verdades duras
Mole ouvido os tiranos ofenderam:
Puniu desterro injusto a minha audácia.
XIII


«Anos sete vaguei de terra em terra
Ora vendo essas ilhas escaldadas
Do eterno fogo que as consome e anima,
Ora os deliciosos habitantes
Da malaia península. — Um repoiso,
Plácido quanto o gozam desgraçados,
Encontrei na escalvada penedia,
Onde na roca estéril se alevanta
Macau, fértil agora das riquezas
Que o manancial do tráfico lhe verte.
Ali, só com meus tristes pensamentos,
Livre ao menos dos homens, só comigo,
Coas lembranças da pátria, co’as saudades
Que lá me tinham coração e vida,
Se não vivi feliz, sequer tranquilo.

 

XIV


«Nas penhas dessa ilha abriu natura
Cava na rocha, solitária gruta,
 Onde as náiades frias vão coitar-se
Do ardor da sesta: à entrada lhe vicejam
Recendentes arbustos, heras crespas;
E no vivo rochedo lhe entalharam
Misteriosas mãos ignotas letras.
Talvez em longes eras meditasse
Solitário discip’lo de Confúcio
Nessa caverna as eternais verdades
Do grande Tien, do deus da Natureza,
Que ao Sócrates da China se amostrara
Mais temporão, se lhes não mentem crónicas,
Que ao amante de Fédon. — Vem quebrar-se
Perto o mar, que se espraia longo e longo,
Té se perder no extremo do horizonte.
Ali de soledade amarga e doce
Esquecidas passei horas ditosas:
Ditosas — se jamais fio d’areia
Na voadora ampulheta me há corrido
Horas que tais se chamem. — Nesse poiso
De suave tristeza me acudiam
À memória as lembranças do passado,
Magoadas coas ideias do presente,
De envolta com receios do futuro;
E acaso de esperança verdejava
Leve folha dos ventos assoprada.


XV

«Pátria, oh pátria! — dizia — é pois um sonho
Essa visão, que por celeste a tive?
Teu nome eternizar, dar brado à fama,
Que de ti digno, digno de Natércia
As gerações pasmadas me aclamassem!...
Assim vos dissipais, visões de glória,
Como fumo que se ergue da choupana
Para subir aos céus, — que Euros dispersam,
Quase punindo-o de tenções tão altas!
Que pode em pró da pátria um desgraçado,
Perseguido, no exílio imerecido?...


XVI


«Uma voz cá do íntimo do peito
Cuidei ouvir que assim me respondia:
— Pode mais do que a espada, a voz e a pena;
Feitos de glória imortaliza o canto,
Salvam do olvido as musas. Viva a fama
Que em versos divulgaram numerosos
Vates de Grécia e Roma. É menos digno
De eterno carme o peito lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram?
Um Nuno fero, um Egas, um Dom Fuas
Não excedem os sonhos mal fingidos
De Orlandos falsos e de vãos Rugeiros?
De incerto Eneias para si não toma
Fama e renome aquele Gama ilustre
Que ousado em p’rigos firme e duro d’alma
Mais do que permitia esforço humano
Cometeu e perfez acção tamanha?


XVII

«Na mente, como um ímpeto invencível,
Me dava abalo o altivo pensamento.
Grande é o arrojo, desmedida a altura
Onde me afoita de subir a ideia.
Embora, embora! seguirei meu fado.
As ninfas invoquei do Tejo ameno,
Que em mim criassem novo engenho ardente
Que a tão subida empresa se elevasse.
Cometi, persev’rei no ousado intento;
Trabalho d’anos foi: e enfim completo,
Com ele à doce pátria me voltava
No benigno favor esperançado
De meus concidadãos, no de um monarca
Prezador das virtudes, do heroísmo
Que em meus versos cantei. — Mais doce ainda,
De mais subido prémio outra esperança
Me alentava... Ai de mim! um longo sonho
Minha existência há sido. — E pois que nada,
Nada já’gora me ficou na terra...
Ei-lo, senhor, o livro: apresentá-lo
Cuidei outrora à esperançosa prole
Do grande Manuel; cuidei depô-lo
Aos pés d’outro monarca mais potente,
Que melhor galardão pudera dar-me
Por quanto hei merecido... — Hoje...»

 

XVIII

                                         Suspenso
Nesta voz, som confuso e mal formado
Que vinha depós ela, se disperde
Em longo e cortadíssimo suspiro.

 

 

 

 

                                 CANTO QUINTO

            Repousa lá no céu eternamente
           E viva eu cá na terra sempre triste.

                                      Camões, Sonetos

 

I

«Correi sobre estas flores desbotadas,
Lágrimas tristes minhas, orvalhai-as,
Que a aridez do sepulcro as tem queimado.
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?


II

«O viço de meus anos se há murchado
Nas fadigas, no ardor sevo de Marte;
Estranhas praias, ignoradas gentes,
Bárbaros cultos vi; gemi n’angústia,
Penei ao desamparo, em soledade;
Vaguei sozinho à míngua e sem conforto
Pelos palmares onde ruge o tigre:
Tudo sofri no alento duma esp’rança
Que, no instante de vê-la me há fugido...
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?

 

III
 
«Longe, por esse azul dos vastos mares,
Na soidão melancólica das águas
Ouvi gemer a lamentosa Alcíone,
E com ela gemeu minha saudade.
Alta a noite, escutei o carpir fúnebre
Do nauta que suspira por um túmulo
Na terra de seus pais; e aos longos pios
Da ave triste ajuntei meus ais mais tristes...
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?

 

IV

«Os ventos pelas gáveas sibilaram;
Duras rajadas d’escarcéu tremendo
As descosidas pranchas semeavam
Pelas cavadas ondas... Feia a morte
Nos acenou coas roxas agonias
Malditas da esperança... — E eu só a via;
Eu só, na cerração da tempestade,
Via brilhar a luz da meiga estrela.
Único norte meu. Por mar em fora
Os duros membros negros estendia
Esse Gigante cujo aspecto horrendo
Primeiro eu vi, primeiro a seus amores
Corri o véu dos interpostos séculos:
Quis-me punir do ousado sacrilégio
Com que os segredos seus vulguei na lira.
As iras lhe arrostei, ouvi sem medo
Os amarelos dentes a ranger-lhe
Por entre os furacões d’atra procela.
Vi-lhe a esquálida barba, de despeito,
Arrepelar-se, e a cor terrena e pálida
Ao clarão dos relâmpagos luzir-lhe
Da sanguinosa cólera inflamada.
Não me aterrou, que do almejado porto
Me alumiava o farol de luz amiga...
Lume consolador, fanal d’esp’rança,
Quando na praia já, sem luz me deixas!
Engano lisonjeiro da existência.
Que verdade cruel te há dissipado?
Que ímpia mão te ceifou no ardor da sesta,
Rosa de amor, rosa purpúrea e bela?


V
 
«Os ecos das soidões que lava o Ganges,
As veigas onde cresce a palma do Indo
Aprenderam teu nome. E o meigo acento
De minha branda lira repetindo,
No sussurro das folhas recendentes
A filha de Cíniras murmurava;
Seus perfumados troncos, entalhados
Por minhas mãos, embalsamado pranto
Ao receber teu nome derramavam:
A criminosa Mirra parecia
De tão virtuoso amor envergonhar-se...
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?


VI

«Oh gruta de Macau, soidão querida,
Onde tão doces horas de tristeza,
De saudade passei! gruta benigna
Que escutaste meus lânguidos suspiros,
Que ouviste minhas queixas namoradas,
Oh fresquidão amena, oh grato asilo
Onde me ia acoitar de acerbas mágoas,
Onde amor, onde a pátria me inspiraram
Os maviosos sons e os sons terríveis
Que hão-de afrontar os tempos e a injustiça!
Tu guardarás no seio os meus queixumes,
Tu contarás às porvindouras eras
Os segredos d’amor que me escutaste,
E tu dirás a ingratos Portugueses
Se português eu fui, se amei a pátria,
Se, além dela e d’amor, por outro objecto
Meu coração bateu, lutou meu braço,
Ou modulou meu verso eternos carmes.
Pátria, pátria, rival tu foste d’Ela!
Tu me ficaste só, não desampares
Quem por Ela e por ti sofreu constante,
Quem por ti só agora o fio extremo
Ténue conserva da existência aflita...
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?


VII

«Desamparou-me! — Triste e sem conforto
Fiquei só, neste vale de amargura.
Linda, mimosa flor, à sombra tua,
Rasteira grama vegetava apenas
Minha tímida esp’rança. Amareleço,
Desabrigada planta, ao sopro ardente
Do norte queimador. — Quem te há cortado,
Quem, rainha das flóridas campinas,
Te decepou sem dó — que faz, que espera,
Que não leva também, que não arranca
A humilde ervinha que sem ti falece?
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Oh! leva-me contigo à campa fria.»


VIII
 
Canção, canção de morte era esta sua,
Que em som carpido os montes repetiam
Da umbrosa Sintra. Sobre um calvo serro
Na pedregosa encosta da montanha
Que os mouriscos torreões inda coroam,
Assim cantava aos sossegados ventos,
Qual moribundo cisne gorjeando
Pelas ribas do Eurotas. Parecia
Que manso pelas auras suspirava
A enternecida Inês, vendo seu vate,
Seu imortal cantor gemer como ela.
Ele uma seca, emurchecida c’roa
De desfolhadas rosas apertava
No ansiado peito: a fio e fio as lágrimas
— Embalde! sobre as flores ressequidas
Corriam da grinalda; o acre do pranto
Mais lhe queimava a tez: não torna ao viço
Flor que poisou na loisa do sepulcro.


IX

Nascia o sol: a névoa que rebuça
De húmido manto os cumes das montanhas
No alvorecer do dia, em véu ligeiro
Rara se adelgaçava; resplendiam
No sossegado mar os doces raios
Da recém-nada luz. A amena veiga
Delicioso vale a quem de Tempe
Cede beldade e fama, se estendia
Pelas faldas da serra. As perfumadas
Árvores d’áureos pomos reluzentes
Que à veloz Atalanta o pé ligeiro
Na apostada carreira retiveram,
E o tão ligado cinto desataram;
As verde-escuras, espinhosas plantas
Donde, virgíneas tetas imitando,
Pende o céreo limão, — pendor não grato
No lindo pomo a que o semelha o vate —
Sobre a relva, inda fresco-rociada
Das lágrimas da aurora, se avistavam
Pela imensa campina recolhendo
A aura criadora nas lustrosas folhas
Donde a vida nos troncos se derrama.
Toda se alvoroçava a natureza
À vinda alegre dessa luz benéfica,
Remoçadora eterna da existência,
Cujas são alma e vida do universo.


X

Em toda a pompa e luxo de suas galas
Sintra, a formosa Sintra se amostrava
Ao monarca das luzes, — qual princesa
Do Oriente ao régio noivo se apresenta,
Voluptuosos perfumes exalando
Das longas sedas com que brinca o zéfiro.


XI
 
Oh Sintra! oh saudosíssimo retiro
Onde se esquecem mágoas, onde folga
De se olvidar no seio à natureza
Pensamento que embala adormecido
O sussurro das folhas, co murmúrio
Das despenhadas linfas misturado!
Quem, descansado à fresca sombra tua,
Sonhou senão venturas? Quem, sentado
No musgo de tuas rocas escarpadas,
Espairecendo os olhos satisfeitos
Por céus, por mares, por montanhas, prados,
Por quanto há i mais belo no universo,
Não sentiu arrobar-se-lhe a existência,
Poisar-lhe o coração suavemente
Sobre esquecidas penas, amarguras,
Ânsias, lavor da vida? — Oh grutas frias,
Oh gemedoras fontes, oh suspiros
De namoradas selvas, brandas veigas,
Verdes outeiros, gigantescas serras!
Não vos verei eu mais, delícias d’alma?
Troncos onde eu cortei queridos nomes

D’amizade e d’amor, não hei-de um dia
Perguntar-vos por eles? Soletrando
Não irei pelas árvores crescidas
Os caracteres que, em tenrinhas plantas,
Pelas verdes cortiças lh’entalhara?
Oh! se inda eu vos verei! se os robres duros,
Se me guardam fiéis os seixos vivos
O humilde nome do esquecido vate
Que em dias de prazer — tão breves foram!
Dias de glória, ternas mãos gravaram!

XII

Há corações ainda que o conservam
Esse ignorado, — mal sabido nome.
Oh! sim que os há! Salvai, salvai, ó musas,
De meus escuros versos estas linhas,
Não para a glória — sonho vão de néscios!
Mas em memória, doce de guardar-se
Nalgum sensível peito. — Onde não gira
Meu sangue... — E o sangue quão diverso corre
Por veias que esquecidas não palpitam,
Desleais! coa memória, mas que rara,
Do infeliz, cujo seio enfraquecido
Sangue, como esse, alenta... Onde não gira
Meu sangue — e o sangue quão diverso corre!
Peitos achei sacrários de amizade,
Corações de anjos...

XIII

                             Sintra, amena estância,
Tronco da vicejante primavera,
Quem te não ama? Quem, se em teu regaço
Uma hora da vida lhe há corrido,
Essa hora esquecerá? Teu nome soa
Eterno já nos hinos enramados
De imorredouras flores. — Impotente
Aí quebra a fúria do fremente oceano
À raiz de teu firme promontório...
Mas que infrenes um dia as altas águas
 Soltas da voz que disse ao mar: Suspende-te
Teu limite é aí — galgá-lo ousassem,
E levar os delfins enamorados
Folgar nos sítios em que geme a rola,
E filomela modelou queixumes,
Suavíssimo encanto da espessura;
Mas que prodígio tal novos trouxessem
Os séculos de Pirra, — inda o teu nome
Não o esquecera transmudado o mundo.
Leva-to além das passadoras eras
Do bordo misterioso o eterno canto,
A harpa sublime agora pendurada
Nos louros do Pamiso, — onde um suspiro
De morte lhe quebrou a extrema corda
Que Eleutéria divina lhe afinara —
Do cantor que no alento derradeiro
Ouviram as cidades contendoras
Pelo berço d’Homero, em canção última
De moribundo cisne, o brado ingente
Alçar da glória aos filhos acordados
De Leónidas que dorme... Não, não dorme;
Vela, co escudo e lança em torno roda
Da arvorezinha tenra que plantaram
Lanças dos bravos. Lanças mil a ameaçam:
Resistirá? — ou do consórcio adúltero,
Ímpia liga da Cruz e do Crescente,
Nascerá monstro que a devore, a trague,
E a queimada raiz lhe exponha ao vento
Da atra ambição dos reis? — Morrei ao menos,
Filhos d’Heleno, perecei com ela.


XIV

A vós já volvo, ó solidões de Sintra,
E ao vate que suspira melancólico
Entre esses que parecem dispersados
Túmulos de gigantes — ou ruínas
De algum primeiro tempo cujos mitos
Esquecidos aí jazem, desprezados
Nesses brutos lascões. — Últimas notas
De sua triste canção inda zumbiam
Pelas asas dos plácidos favónios,
Quando uma voz: —Não é de ânimo grande
Sucumbir aos reveses: gema embora
O coração ferido; mas um prazo Deu a razão às lágrimas.
Segui-me.
«Onde? a quem?... Ah! sois vós?»
                                                            — Sou eu, amigo;
Cavaleiro, sou eu. Vinde; à justiça
Porta abrimos enfim: ver-vos deseja E ouvir-vos o monarca.
                                                           — «A mim!»
                                                                         «Puderam
Chegar ao trono as vozes da verdade.
Sabe quem sois el-rei; louvou com ênfase
O amor da pátria glória que a alta empresa
De perpetuar seu nome há cometido,
Dando aos heróis de Lísia eterna fama.
Vinde, que à hora nona vos aguarda Impaciente.»
— «Mas o livro?...»
                               — À corte
Vim por ele e por vós; comigo o trouxe.
Há muito o conhecia: amigos vossos
Dele com grande preço me falaram
Em Goa e Moçambique.»
                                                    «E como ao ouvido
Chegou d’el-rei meu ignorado nome?»
— Sabereis tudo: dai-vos pressa; é tempo
De preparar-vos à solene audiência
Que havereis do monarca.


XV

                            Ambos desciam
A íngreme serra; abordoado o velho
Em seu cajado tosco, lhe dobrava
Trémulos passos caridoso empenho
Do oficioso coração. Renasce
O ardor súpito no inflamado peito
Do guerreiro acordado do letargo
De que o desperta esperançosa a glória.

 

 

 

                                        CANTO SEXTO

 

Não tinha em tanto os feitos gloriosos De Aquiles, Alexandre na peleja, Quanto de quem o canta os numerosos Versos; isso só louva, isso deseja,

                                                                                         Lusíadas

 

I

O ceptro de Manuel, nas mãos já débeis
De Joane começado a desdoudar-se
Do esmalte das vitórias e triunfos

Com que tanta virtude o adereçara,
O ceptro que, nas mãos doutro Joane
Que ensinou a ser reis os reis do mundo,
Fora vara de lei e de justiça,
Fiel de liberdade bem pesada
Na balança da pública ventura,
Ora na dextra de inexperto jovem
Vergado a maus conselhos, vacilante
Por meneio indiscreto, mal dirige
A máquina do estado, que parece
Mover-se ainda pelo antigo impulso
De melhor regedor. O astro de Lísia
Do zénite de sua glória descrevia
Curva afrontosa a miserando ocaso,
Que de Alcácer nas tórridas areias
Erros, crimes, traições lhe estão cavando.


II

Reinava Sebastião. — Se ânimo nobre,
Se valentia, amor de fama e d’honra
Bastara a fazer reis, fora um rei esse;
Mas... — Sebastião reinava. Mal dormido
Sobre os avitos louros, já correra
A segar palmas na africana terra,
Que de nossas conquistas e vitórias
Berço fatal há sido e sepultura.
Do primeiro triunfo embriagado
Cuidou já da fortuna a vária roda
Ter fixada coa espada do mancebo.
Armas, pelejas e vitórias sonha;
E entanto sobre as ondas mal seguras
Voga, à lei delas, o baixel do estado.
Ávidas mãos, do abandonado leme
Validos travam, não a endereçá-lo
Para o rumo perdido; mas cobiça
Treda, que os move, a sirtes, a naufrágios
Desarvorada a nau presto arremessa.
Em suas iras de flagelo aos povos
Um rei conquistador lhes manda o Eterno.

 

III

Do Escorial a onça refalsada
Os negros fios da ambição urdia
Que, por mãos de vendidos conselheiros
Em labirinto escuro enrevezavam
Os descuidados passos do monarca.
Murmurava em silêncio malsofrido
Da nobreza real o escasso resto Que do antigo despejo lusitano
Os francos sentimentos conservava.
Impera o fanatismo, a hipocrisia:
No profanado altar, fogueiras, vítimas,
Do oriente ao ocidente lhes afumam
O incenso da cobiça, e o vapor negro
De sangue e morte que regala os monstros.
Em taças de ouro, com prazer de tigres,
De lágrimas de viúvas se embriagam;
E os suspiros dos órfãos desvalidos,
Como deleite de suave música,
Os danados ouvidos lhes afagam.


IV

Eco antigo do nome lusitano
Memórias de Pachecos e Albuquerques
Sós continham ainda os inimigos
Do vacilante império. Alucinado,
Ignorante dos males que lhe encobrem,
Crê reinar sobre um povo afortunado
Do Tejo ao Zaire, e do Amazonas ao Ganges,
O mancebo infeliz: tão vastos reinos,
Que não governa, dilatar procura.
Cego! que triste fado, em mal, o aguarda!
Que triunfos, que glórias, que esperanças,
Que sec’los de vitória, que virtudes
Não vão, num dia, perecer com ele!
Sorvei, areias d’África, essas cinzas,
Bebei todo esse sangue. — As asas mortas
Exânime enrolou, caiu por terra
O tenebroso Drago que amparara
As Quinas tanto sec’lo: então primeiro
O Leão de Pirene o olhou sem medo.


V

Um só de honrada fama, inda virtuoso
E português ainda, conservava
No ânimo real leve influência.
Aio dera o avô ao jovem príncipe
Dom Aleixo, estremado entre os mais nobres.
E em virtudes e letras ilustrados
Cavalheiros da corte. Não se atreve,
Conquanto o desejara, o rei mancebo
A afastar de seu lado este severo
Amigo, que as verdades lhe não doira,
Nem de lisonja vil empana o lustre
Que em suas rectas palavras pôs justiça.
Erros fatais, iníquos procederes,
Feios labéus de púrpura — oh! e quantos
Tem prevenido o velho! Quantas vezes
Diante dessa honrada singeleza
Tem recuado a intriga, — e despeitosa
Curvado a prepotência a cerviz dura!
Os validos, que o temem, que o detestam,
Arteiramente vão minando surdos
O favor do monarca mal experto:
Mas não puderam inda. Pura, ingénua
Como a do homem de bem, era de Aleixo
A religião sincera, detestava
A hipocrisia, o orgulho dos ministros
De um Deus todo amor, todo humildade,
Que, sem comentadores, lhe mostravam
O Evangelho e a razão. Poucos amigos
Como é de ver, contava o honrado velho,
Mas dignos dele todos. Desse número
Era — e não muitos mais de seu estado,
O castelhano ancião a quem o acaso
Hóspede e confidente ao vate dera.


Vl

Santo fervor que à lusitana corte
Trouxera o venerando missionário,
Do Aio real na protecção confia
Para obter o que importa a seus misteres
Nas remotas regiões onde deixara
Cos neófitos seus alma e cuidados,
Versado nos antigos exemplares
De Grécia e Roma, aos cânticos sublimes
De Job e Isaías se aprazia
De comparar, em horas mais folgadas,
Canções de Smirna e Mântua: a miúdo o viram
Sobre os prantos de Dido verter lágrimas,
Talvez sem o remorso escrupuloso
Do eloquente Augustinho. Recebendo
Em depósito um poema de que ouvira
Falar já tanto, e de homem tão famoso
Por seu grande saber, talento e arte,
Ávido o livro abriu, leu. Admirado
De ver trajar alfaias lusitanas
Às homéreas belezas, aos apuros
Das virgilianas graças, — mais ainda
De originais, de novas formosuras
Por antigos cantores não sabidas,
— Cantores que jamais cuidou possível
Igualar, exceder por arte humana —
Seu generoso natural ardente
Se lhe inflamou de nobre entusiasmo:

— «E obra tal (exclamou), tamanho engenho,
Tão nobre amor da pátria, tão sublime,
Árdua empresa, trabalho tão difícil
Não terá galardão? Quem há mer’cido
Tanto da pátria por espada e pena,
Ingrata a pátria o deixará sem prémio?
Irá mendigo e súplica implorando
A chatim mercador de ganho avaro,
O humildoso favor de que lhe aceite
Tal obra e tanta, por mesquinho preço
Que, porventura, nem lhe mate a fome
Nem lhe cubra a nudez — Oh!...» Resoluto
Toma o bordão, caminho vai de Sintra,
A Aleixo fala, expõe-lhe o triste caso,
Maravilhas que leu conta, e as virtudes
E assinalados feitos do homem grande
Que em vão apouca a sorte. Almas formadas
Para a virtude e nobres sentimentos,
Fácil se entendem, e fácil comunicam
De seu ardor sagrado o íntimo fogo.


VII

Menezes disse ao rei: — «Senhor, um velho
E fiel servidor de tantos anos
Que jamais vos pediu mercê nenhuma,
Hoje um simples favor pequeno e único
Da bondade real — talvez justiça! —
Poderia esperar?»
                                        «Tudo: explicai-vos
Tudo: que pretendeis?
                                 — Pouco vos peço: Que ouçais um infeliz.»
                                     «Onde está ele?
Venha, mas seja breve; o tempo é curto:
E meus empenhos...»
                                    — Praza a Deus que sejam
Aos portugueses e ao seu rei profícuos!
 «Certo o serão: a glória nos aguarda
Nas africanas praias impaciente.
A mim me tarda já de ir encontrá-la,
E... Porém dom Aleixo não aprova
As tenções do seu rei.»
                                      — Quando em conselho,
Franco ouvireis o meu; mas fora dele,
Real senhor, respeito e obediência
São os deveres únicos dum súbdito.
«O homem que sois, Menezes, bem conheço:
Amei-vos desde a infância, e inda vos amo.
Sois meu amigo, sei-o, e tão sincero,
Tão leal o não tenho.»
                                                     — « O céu permita
Que o cuideis sempre, e que infiéis não sejam...
Senhor, o desgraçado por quem rogo,
Nada vos pede; é português e altivo,
Como o são portugueses: mas tal feito,
Tão gloriosa empresa em prol da pátria
Cometeu e perfaz, que já desaire
Real seria de a deixar sem prémio»
— «Quem é esse homem? Que fez ele? O Gama,
O Albuquerque igualou?»
                                        — «Fez mais do que eles;
Que os tornou imortais. Podem um dia
Erros nossos, baloiços da fortuna
Dar cabo dessas glórias do oriente,
Dessas conquistas d’Albuquerque e Vasco:
Mas a fama das letras não perece,
Nem a domina o fado. Tanta glória
De Portugal padrão eterno exige
Que lhe assegure dos vaivéns a sorte
O porvir sempre incerto. Que soubéramos
Das façanhas de Aquiles, da piedade
Do fundador primeiro dessa gente
Romana cujo nome inda enche a terra,
Se de Virgílio e Homero não ficassem
Mais duráveis, seguros monumentos,
Que as vencidas nações, que os altos muros
Das erguidas cidades? Confessá-lo
Nos é força a nós outros cavaleiros:
Renome e glória, bem o ganha a espada;
Mas conservá-lo, só o pode a pena.»
— Assim mo heis ensinado e o tenho certo.
— Dos mais famosos príncipes o exemplo
Vo-lo dirá melhor. Vede Alexandre
Chorar de inveja, não pelos triunfos
Do filho de Peleu, mas pelos cantos
Que imortal o fizeram: vede Augusto
Prémios, favores, honras dispensando
A quem de Roma as glórias celebrava.
Valem mais do que os feitos portugueses
Os de Gregos, Romanos? Mais vitórias,
Mais troféus, mais virtudes nos reconta
Sua falada história?»
                                             «Não, amigo,
Não; e eu farei que inda maior se exalte
O nome português pelo universo.»
— Assim apraza aos céus!
                                               Praz, sim. Ou morte
Honrada, ou glória igual a meus passados
Ganharei eu.»
 — A glória dum monarca,
Nem sempre armas a dão. Dinis pacífico,
Joane o justo...»
          &n

                     «Assaz mo tendes dito,
Falemos, dom Aleixo, desse livro...»


VIII

E Aleixo quanto ouvira ao missionário
Breve lhe expõe: o mérito da obra,
O glorioso renome que lhe fica
De protector das letras; enfim tudo
Quanto para inflamar o ânimo ardente
Do mancebo real melhor convinha.
«Ouvi-lo quero» disse o rei, «chamai-o
Da minha parte: prémio terá digno
Dele e de mim, se o que dizeis é certo.»


IX
 
O virtuoso Aleixo corre alegre
Com a resposta ao empenhado amigo
Que de tais esperanças enlevado
Por devesas e grutas, por montanhas,
Da fresca Sintra em derredor discorre,
Té que o seu protegido alfim encontra.
Juntos desceram a escabrosa serra,
E de gratos futuros embalados
A hora aprazada para a audiência aguardam.

 

                                     CANTO SÉTIMO

 

           Vereis um novo exemplo
           De amor dos pátrios feitos valorosos,
           Em versos divulgado numerosos...
           E julgareis qual é mais excelente
           Se ser do mundo rei, se de tal gente.

                                                    Lusíadas


I


Eu vi sobre as cumeadas das montanhas
D’Álbion soberba as torres elevadas
Inda feudais memórias recordando
Dos Britões semibárbaros. Errante
Pela terra estrangeira, peregrino
Nas solidões do exílio, fui sentar-me
Na barbacã ruinosa dos castelos,
A conversar coas pedras solitárias,
 E a perguntar às obras da mão do homem
Pelo homem que as ergueu. A alma enlevada
Nos românticos sonhos, procurava
Áureas ficções realizar dos bardos;
Murmurei os tremendos esconjuros
Do Escaldo sabedor; — falei aos ecos
Das ruínas a língua consagrada
Dos menestréis; — perfiz solenemente
Todo o rito; invoquei firme e sem medo
Os génios misteriosos, as aéreas
Vagas formas da virgem d’alvas roupas
Que, as tranças d’ouro penteando ao vento,
Canta as canções dos tempos que passaram
Ao som da harpa invisível que lhe tangem
Os domados espíritos que a servem,
Como o subtil Ariel, por invencível,
Encantado feitiço...


II

                           — Ou mal ouvido
Foi o invocar do menestrel estranho,
Ou triste realidade dissipava
Fantasias de vates. Nem seteiras
Me bruxuleavam namoradas cores
De bordado talim, sérica banda
Por mão furtiva de gentil donzela
Deitada em hora escusa ao cavaleiro
Que aventuras correr se vai ao oriente
E a ganhar do infiel a Terra Santa.
Nem, d’além valos, nos corcéis armados
Vi descidas viseiras, peitos d’aço
Onde se espelha vacilante a lua,
Enquanto aguardam que da ameia soe
 Corno de anão que abata a erguida ponte.
Não vi quadrigas de vistosas justas
Nas praças d’armas à lançada viva
Disputar-se o colar de ouro maciço
Prémio do vencedor, por mãos bem lindas
Ao peito inda sanguento pendurado.

 

III


Nada!... Só pelos fossos entupidos
Do desfolhar do Outono, e bronco entulho
Dos muros derrocados, — soltas pedras
E imunda terra à vista afiguravam
Insepultos cadáveres, golpeados
Membros, inda cobertos d’aço e ferro,
Dos que em contenda injusta pereceram
Pelo vaidoso orgulho ou vão capricho
Do castelão soberbo. Nas ameias
Se me antolhavam hórridas cabeças
Hirta a grenha, coas carnes laceradas
Do corvo — certo amigo dos tiranos,
Que regalado o trazem. Tristes vítimas!
Mais crime não teriam que a vontade
Do imperioso senhor que a seus vassalos
Vilões de sua terra — seus como ela —
Quis do poder que tem mostrar a alçada.


IV

Ao pé dessas janelas recortadas,
Em que inda o tempo conservou resquícios
Dos já pintados vidros, fresta escassa
Dá luz medonha à escuridão sombria
De fétidas masmorras inda inteiras,
Mais duradoiras que os salões dourados:
Como se a idade, que destruiu palácios,
Memórias de prazeres, luxos, pompas,
Catasse mais respeito a tais vestígios
De atrocidade e crimes, — e escrevesse,
Ao passar, com a fouce enferrujada,
No limiar dessas portas: Escarmento
Às gerações porvir. — Doía-me alma
Na solidão das ruínas; e a lembranças
Mais gratas me fugia o pensamento,
Para os vergéis da pátria esvoaçando.

 

V

Oh! nobres paços da risonha Sintra
Não sobre a roca erguidos, mas poisados
Na planície tranquila, — que memórias
Não estais recordando saudosas
Dos bons tempos de Lísia! Nem seteiras
Nem torreões nem barbacãs nem fossos.
E que havia mister desse aparato
Dado a tiranos, que inimigos vivem
De inimigos cercados? Que soldados,
Que mercenárias hostes de Janízaros
Precisava um monarca lusitano
Que precedido vai por débeis canas,
Símbolo da brandura e singeleza
De bom pastor de povos? — Santas eras!
Se pudésseis voltar, dias ditosos.


VI

Alto o dia, horas oito: já nos átrios
Girava do palácio a vária turba
Que a audiência do rei, ou do valido,
— Quantos do mais escuro sevandija
Que tais mansões infesta! — ali aguardam
Acobardados uns, esperançosos
Outros se amostram. Pretendente humilde
Tímido se conchega a pobre capa,
Porque não toque as rugedoras sedas
Do cortesão soberbo. Altivo o grande
Com gesto protector ali corteja
O artífice coitado, que nem ousa
Recordar-se das dívidas antigas
De tamanho senhor, tão dado e lhano,
Que tal honra lhe faz. O nédio abade,
Que engordou nas fadigas evangélicas,
Sem olhar, vai passando o triste cura
A quem a escassa côngrua tanto abaixo
Na hierarquia pôs. Que requer este?
Do real padroeiro esmola ténue
Para uma caridosa albergaria
Que em seu pobre passal instituíra.
E o que pretende aquele? — O episcopado;
A que tanto direito lhe conferem
Os trabalhos dum pingue benefício
Desfrutado na corte.


VII

                                             — Nesta cena
Tão variada em actores e interesses,
Dois novos, que no gesto e ad’mã bem mostram
Quanto esteiras do paço os desconhecem
Entravam; curioso alvo das vistas
Da turba pretendente: um velho monge,
Um guerreiro de aspecto altivo e nobre,
Mas de vaidade alheio. — «Vem da Índia
A requerer: — não trazem doutra gente
Estas frotas de Goa?» — Abriu-se a porta:
Volvem-se os olhos todos. Qual em Delfos
Devotos peregrinos, quando os quícios
Do misterioso limiar se movem,
E o oráculo — terrível ou propício?
— Vai por obscuros carmes explicar-se.

 

VIII

É dom Aleixo: no tropel confuso,
Que se apinha d’em torno, alguém procura.
Quem será o invejado aventuroso?
O aio real aos dois desconhecidos
Cordial saúda; e conversando juntos
Poucos momentos, — eis dão os porteiros
O devido sinal, menestréis tangem;
El-rei chega, no trono toma assento.
Breve a audiência foi; não sobra o tempo
Para as santas funções de magistrado
A militares reis: às armas cede
A toga mal prezada. — Audiência é finda.

IX

E el-rei, como inquieto, ao aio antigo:
— Dom Aleixo, entre tantos pretendentes
O vosso protegido não no vejo.
«Ei-lo, senhor, o nobre cavaleiro Que desejais ouvir.»
             — Sim, quero ouvi-lo,
Quero e desejo: não ignoro o preço
Das boas letras, nem dum raro engenho
 A estima desvalio: em prol da pátria
Uns obramos coa espada; cumpre a outros
Coa pena honrá-la.
               «Se honra a minha pena
Real senhor, a minha amada pátria,
Di-lo-ão sabedores e letrados.
Para servi-la... espada e braço tenho
Que por si falarão.»
              — Digna resposta
De português! Honrado sois, amigo.
Por tal vos tenho e quero; e abonos vejo
Em vosso rosto que voltar não usa
Da face do inimigo. — É este (disse,
Falando aos cortesãos) de quantos d’Ásia
Aqui vêm, o primeiro que não fala
Em suas cicatrizes.»
              «Bastas eram,
Senhor, as de Pacheco, e...»
                             - Eu não ignoro,
Asperamente el-rei o interrompia,
Os feitos de Pacheco.


X

                     Olhos pasmados
Os cortesãos cravaram no soldado
Que tão crua verdade se afoitava
A proferir ali; algum já cuida
Que de escuro castelo a torre o aguarda,
Ou que ao menos... Compondo um tanto o vulto,
Tornou el-rei:
        — Iremos, para ouvir-vos,
Da Penha-verde à fresquidão sentar-nos.
Calmoso vai o tempo; e ademais, prazem
Dobrado entre a verdura os dons das musas.


XI

Seguem todos o rei; a encosta sobem
Do monte; e pelos bosques onde o louro
Inda as glórias de Castro está c’roando
Inda viceja coas memórias dele,
A real companhia vai entrando.


XII

Estavam d’altas árvores à sombra
De aveludada relva em fresco assento.
Atento o jovem rei fitava ansioso
O guerreiro cantor que o nobre aspeito
Tinha como de glória resplendente,
E na divina inspiração aceso.
Qual deveras o imita, qual fingido;
Mas todos se compõem do rei a exemplo.
O vate começou: pausado acento,
Respeitoso não tímido, lhe alonga
Solenemente o cadenciar medido
Do metro numeroso. O heróico assunto
Primeiro expõe do canto: armas e glória
Dos barões lusitanos que fundaram
Do Oriente o império novo; os grandes feitos
Dos reis, dos cidadãos de eterna fama
Que se hão da lei da morte libertado.
Logo as Tágides musas invocando
Porque alto som lhe dêem e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente:
— Dai-me — com voz mais elevada clama —
Dai-me uma fúria sonorosa e grande,
E não de agreste avena ou ruda frauta,
Mas da tuba canora e belicosa
Que o peito acende, e a cor ao gesto muda,
Um canto igual a meu erguido assunto,
Se tão sublime preço cabe em verso.»

 

XIII

Depois ao jovem rei, segura esp’rança
Da lusitana, antiga liberdade,
Em versos d’amor pátrio cintilantes,
A ouvir cantar dos feitos portugueses
Convida; pinta-lhe em vivazes cores
A grandeza do povo a que preside,
A lealdade, o valor; e recordando
De seus avós famosos as virtudes,
Digno exemplar de emulação lhe aponta.

 

XIV

Já da tuba a Calíope travando,
Em tarso estilo, e não de inchada pompa,
Mas — qual fluente e majestoso rio
Por suas ribas magnífico se espraia —
Tal por seu grande assunto o vate imenso.


XV

No largo oceano, em próspera bonança
As atrevidas naus vão navegando.
Dos céus o alto poder sublime e dino
A conselho as menores potestades
Sobre tamanha empresa convocava.
Cuidas ver, lá num trono de diamante
Sentado o pai dos numes; por seus lábios
Fulge o louvor da lusitana gente,
Pasmo e terror do mundo. É seu propósito
De mor glória lhe dar no ignoto Oriente.
De Nisa o vencedor cioso impugna
A sentença do nume. Quem sustenta
A heróica Lísia? E Vénus, Vénus bela,
Afeiçoada a um povo, das romanas
Qualidades herdeiro, e cuja língua
Com pouca corrupção crê que é latina;
Um povo tão zeloso de seu culto,
Tão devoto amador de seus altares!
O fado o decretou, Jove o confirma;
Abram-se as portas do Oriente aos Lusos.

 

XVI
 
Já surgindo na treda Moçambique,
Ao fementido mouro pune o Gama
Da pérfida malícia. Eis lá Mombaça
Onde falsos Sinons a engano o levam,
Cru exício lhe estava preparando,
Por artes do que sempre a mocidade
Tem no rosto perpétua, e foi nascido
De duas mães. Tu, Ericina linda,
Que a assinalada gente andas guardando,
Tu, do velho Nereu coas alvas filhas,
Pondo ao duro madeiro o brando peito,
Da cilada os salvaste. — Aqui do vate
O’ stilo se embrandece,  ‘spira o canto
Suavíssimos perfumes de Amatunta;
Rosas de Pafos e jasmins de Gnido
A namorada lira lhe coroam,
Quando a bela Dione à sexta esfera
Segue enlevado. — Está pelos semblantes
Dos que o escutam debuxado o gosto
Que o deleitoso quadro acende n’alma.
O mimo dos pincéis tão delicados,
Não lho deu natureza, que o não tinha;
Deu-lho amor de seus cofres escondidos,
Que nem a Ticiano tão querido,
Tão grão privado jamais abrira.


XVII

Mármores de Praxísteles, esmeros
De Fídias, de Cánova, oh que beldades
Retratais imperfeitas! — Mas que os fados
Vos outorgassem a invejada sorte
Do venturoso Pigmalião obtida,
Quando há-de o apuro do cinzel mais destro
Tais mimos igualar? Aquele gesto
Que as estrelas, o céu e o ar namora.
Aquele afrontamento do caminho
Que a beleza lhe aviva? Como as graças,
Os espíritos vivos que inspiraram
Dos olhos onde faz seu filho o ninho?
Vê-la diante do padre omnipotente
Como na selva do Ida se amostrara
Ao mui feliz troiano!... que, se a vira
Tal o que já por vista menos bela
Vulto humano perdeu, nunca seus galgos
Bárbara lei! — o houveram devorado
Que primeiro desejos o acabaram.


XVIII

Os crespos fios d’ouro desparzidos
Pelo colo que a neve escurecia;
Lácteas tetas que andando lhe tremiam,
Com quem amor brincava e não se via;
As flamas que lhe saem d’alva petrina;
Desejos que como heras enrolados
Pelas lisas colunas lhe trepavam...
Quem tal expressará, quem tais belezas,
Na sílica ou painel em brandos versos,
Pintar já soube? — Não a viu tão bela
Graças pleitar pelo invejado pomo
O real pastor de Príamo. — Escondidos
Por delgado cendal outros encantos...
Escondidos só quanto mais acenda
E redobre o desejo que penetra
O véu dos roxos lírios pouco avaro.


XIX

O omnipotente padre não resiste
Aos feitiços do angélico semblante,
Àquela doce nuvem de tristeza
Com riso misturada: — qual a dama
Em amorosos brincos maltratada
Do incauto amante — que se ri se aqueixa
E se mostra entre alegre e magoada.
Jove não resistiu — quem tal pudera?
Beijo acendido à súplica responde.


XX
 
Propício o fado aos fortes navegantes
De sorrir-lhes começa. Já Melinde
Amigos braços lh’abre: já do Gama
Os lusitanos feitos recontados,
Terra e costumes são. Pasma o rei bárbaro
De ouvir dos povos da soberba Europa
As remotas regiões, ignotos nomes.
Pinta-lhe, quase cume da cabeça
Da Europa toda, o português império,
Pátria do esforço outrora e liberdade.
Diz o pastor que do ferrado conto
De seu cajado abate águias romanas.
Henrique o mauro jugo espedaçando,
E abrindo com sua espada triunfante
De Lísia o fundamento. Ao filho ilustre
Cabe glória maior: de c’roas cinco

No Ourique derrubadas, nova c’roa
A vitória lhe tece; e as santas Quinas,
Por eterno brasão, dos céus recebe.
De Egas Moniz a lealdade e a honra
Aqui também refere. Olha, os filhinhos
Tenros, e a doce esposa vão descalços
A oferecer as inocentes vidas
Pela dada palavra. — Mais se estende
Sob o primeiro Sancho o novo reino
Pelos vencidos, tórridos Algarves.
Vem outro Afonso, o vencedor d’Alcácer.
Do mouro pertinaz exício extremo.
Mas do segundo Sancho a mole inércia,
De privados regida, não tolera
Nação altiva que outro rei não sofre
Que não for mais que todos excelente.
Das impotentes mãos as rédeas toma
O conde bolonhês: à glória volvem
As armas portuguesas. Melhor sorte
Coube a Dinis, pacífico monarca:
Às conquistas da espada deu cultura,
D’artes a ornou e enobreceu coas letras;
E às formosas campinas do Mondego
Fez do Hélicon descer as áureas musas.
Claros lumes da terra, sãos costumes,
Constituições e leis co’ele florescem.


XXI

Mal obediente o valoroso filho,
Domador das soberbas castelhanas,
Do venerando pai impunha o ceptro:
Afonso, que nos campos do Salado
As hastes granadis prostrou tremendas
Com pequeno poder. — Viçosos louros
De tamanho e tão próspera vitória
Caso triste murchou, crueza bárbara
Que à belíssima Inês deu morte injusta.
O próprio amor, cuja ferino sede
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
Inda às saudosas margens do Mondego,
Junto à fonte que lágrimas formaram,
Verte sobre ele desusado pranto.
As nações do universo, que escutaram
As endechas do vate, as vão cantando;
E do bárbaro Neva ao culto Sena,
Desde o Tamesis frio ao Pado ardente
Os lamentos de Inês repete a lira.

 

XXII

Brandas ninfas do plácido Mondego,
Vós que o doce gemer, que os namorados
Ais do prazer ouviste pela selva
Que encobriu tanto amor, tanta ventura
Em tempos de mais dita; que escutaste
Os magoados suspiros da saudade,
Quando ausente daquele por quem vive,
Só, gemedora rola, vai carpindo
A ausência do seu bem, do seu amado,
E aos montes, às ervinhas ensinando
O nome que no peito escrito tinha;
Que depois, memorando a morte escura,
Longo tempo das urnas cristalinas
Só lágrimas formosas derramastes,
E, por memória, em fonte convertidas,
O nome lhe pusestes, que inda dura,
Dos amores de Ignês que ali passaram;
Vós ao vate os segredos recontastes,
Os mistérios d’amor, e o pranto, as queixas
Da malfadada Castro. — A lira anseio-lhe,
A voz carpe-se, os tons gemem tão meigos,
Mas tão cortados de uma dor tão viva,
Que é um partir-se o coração de ouvi-los.

 

XXIII

Ausente é o esposo: solitária vaga
Pela várzea de flores recamada,
No pensamento alheado revolvendo
Ledos enganos d’alma, suavíssimas
Lembranças do passado, e a mais suave,
Lisonjeira esperança do futuro.
Oh! quando ela outra vez naqueles braços
O tornar a apertar, quando... Armas soam
De cavaleiros, e corcéis nitrindo
Nos átrios do palácio... Escuta... É ele,
O seu Pedro, oh ventura! — «Esposo, esposo!»
Mas pelo ausente esposo o pai responde.
O amante não vem: juiz severo,
Pelos beijos d’amor, lhe traz castigo
Que não merece amor, nem quando é crime.

 

XXIV

Cos filhinhos, em vão banhada em pranto,
Súplice implora os bárbaros. O ferro
Embebem crus no peito cristalino;
E as vivas rosas, que das faces fogem,
Pela ferida a borbotões se esvaem.
Cos inocentes filhos abraçada,
Não geme, não suspira; a beijos colhe,
Uma a uma, as feições que tanto ao vivo
As do querido amante lhe retratam.
Já pelos lábios derradeira foge
A última vida, o último sopro em ósculos
Todos d’amor, todos ternura. Os olhos
Já da formosa luz se extinguem... Trémula
Inda coa incerta mão procura os filhos,
Inda afagando imagens de seu Pedro,
Entre os amplexos maternais, — «Esposo,
Esposo... esposo!» balbuciando, expira.

 

                                   CANTO OITAVO

 

          Em perigos, e guerras esforçados,
          Mais do que prometia a força humana
          Entre gente remota edificaram
          Novo reino, que tanto sublimaram

                                                   Lusíadas


I

Aqui chegava o canto: houve crestadas,
Guerreiras faces que enrugou Mavorte,
E onde aflição, nem dor, nem transe d’alma
Jamais colheram lágrimas, houve delas
Mal enxutas do pranto involuntário
Que ais d’amor, que entusiasmo de virtude,
Patriotismo ou glória destilaram
De olhos torvos por centos de batalhas.
Mas d’alma ao rosto vai canal aberto
Que só entopem vícios, ou fingido
Orgulho do homem vão. Porque te escondes
Na toga consular o vulto austero,
Libertador de Roma? Já suspensas
As segures estão... Tão firme peito
Que faz, que não sustenta o rosto ao golpe?
Roma é salva... Mas eles são seus filhos;
E Bruto, o cidadão, também é homem.


II

Louvor ao vate insigne! — Pouco dizem,
Que sentem mais. O jovem rei aplaude
Com franco entusiasmo, e entre si pensa:
— Um dia ofuscarei toda essa glória,
E a mais altas canções darei assunto.

III

Trazem no entanto moços de pelote,
Em ricas salvas d’ouro alto-lavradas,
— Páreas de avassalados reis do Oriente —
A casquinha gulosa e delicada,
Da selvosa Madeira arte e renome,
Luxo de lautas mesas; amplas jarras
De louçã, transparente porcelana,
Raro produto do Chinês longínquo
— Raro na Europa ainda, e então condigno
Ornato de reais copas. — Ali se enchem
Ao límpido jorrar de fresca fonte
Da fria água de Sintra, e saborosa
Mais que o licor do Reno, ou que as sulfúreas
Lágrimas de Parténope. Tomaram
Refeição leve a nobre companhia
E o vate prosseguiu.


IV

                               Está contando
O Gama ao rei amigo os mais famosos
Feitos dos nossos. — Diz-lhe de Fernando
Os amores adúlteros, e o tíbio.
Frouxo governo que indefeso o reino
Deixa ao furor imigo castelhano,
E de total destruição em p’rigo:
Que um fraco rei faz fraca a forte gente.


V

Mas do letargo vil em que o prostraram,
À voz de Nuno o português acorda.
Com palavras mais duras que elegantes
Glória bradou e liberdade e pátria,
Nomes que outrora em peitos lusitanos
Eram de chama eléctrica cintilas
Que os corações briosos lh’inflamavam.
Embalde o poder todo de Castela,
Por sustentar Beatriz, feroz se ajunta.
Joane por seu rei levanta o povo;
E o eleito do povo é digno dele
Não curva a jugo estranho o colo altivo
A nação, indomável quando livre.

 


VI

Campos de Aljubarrota, inda em vós soa
O eco da trombeta castelhana
Horrendo, fero, ingente e temeroso.
Guadiana, tuas águas de assustadas
Vejo-as atrás volver. — Que anjo de morte
É esse que discorre d’ala em ala
Coa fulminante espada? Jorra o sangue,
Treme a terra debaixo dos pés duros
Dos ardentes cavalos, soa o vale,
Lanças escalam, os broquéis sonoros
Estalando retinem — «São Tiago!»
— São Jorge e avante!» cada qual rebrama.
— «Vitória! A quem?» — «Ao Lusitano, a Nuno.»


VII

Já não cabe na Europa o ânimo grande
Dos Portugueses: treme a África adusta,
 E a triunfada Ceuta abre suas portas
Aos infantes magnânimos. — Mas cara
Custa a vitória: vês, o novo Régulo
Só pelo amor da pátria está passando
A vida, de senhora, feita escrava:
Fernando expira em tenebrosos cárceres;
Vive porém seu nome e claro brilha
Para glória da pátria, e eterno opróbrio
De príncipes covardes que hão descido
A ignorado sepulcro em leitos d’ouro.

 

VIII

Glorioso João, foi teu reinado
Alto começo à lusitana glória
Que, do extremo ocidente, a longes terras,
A mundos novos, mares não sabidos
Triunfante correu. — Jamais no mundo
Se viu trono real assim rodear-se
De generosa prole. Não se acoitam
Molemente na púrpura paterna
Os filhos de João, nem se crêem grandes
Em torpe ociosidade vegetando
À sombra do diadema que em suas frentes
Descuidadas não pesa: — Henrique o grande,
O sábio Henrique, o protector filósofo
Das ciências que honrou; Fernando, o santo
Mártir da pátria; Pedro, o virtuoso
Legislador e justo; João, o austero,
Alma romana em coração de Luso,
E Duarte, o pacífico, o piedoso
Que tão breve reinou.


IX

Tenro inocente
Vestiu manto real o quinto Afonso:
Nas virtudes de Pedro achou tutela
Sua idade inexperta. Ingrato e feio
Caso, digno das torres de Bizâncio,
Viram de Alfarrobeira infames plainos
Roxos do sangue das civis discórdias.
Toda a tua glória, vitorioso Afonso,
Esse apelido insigne que hás tomado
Ao destruidor da desleal Cartago,
Nódoa tão negra à fama te não lavam.
Teu nome, e o de teus pérfidos validos,
Todo o bom português detesta. — Esconde,
Esconde, Afonso, a púrpura sanguenta
Traz a glória imortal que resplandece
D’em torno ao filho teu. Se há i rei justo
Rei cidadão, monarca magistrado,
Rei que obedeça à lei, que a guarde ao povo,
Que o ceptro, vara augusta de justiça,
Equilibre entre grandes e pequenas,
Puna opressores, oprimidos erga,
Abata o orgulho vão, premeie o mérito,
Busque a virtude em sótãos de humildade
Para a exaltar sobre arrasados paços
Do crime audaz e da soberba inútil;
Rei que o ofício de rei preencha e saiba;
João segundo o foi. Celebrem-te outros
Pelo valor que Toro inda pregoa,
Por domadas regiões, arados mares,
Por descobertos cabos, — esperanças
De futuras riquezas e conquistas:
Eu só coroarei teu sacro busto
Com a cívica folha imarcescível
Do carvalho, mais nobre e mais glorioso
Que o louro dos heróis. Sanguíneas gotas
Mancham sempre a grinalda das vitórias;
E o clamor da viúva, o grito do órfão
Quebra a harmonia dos clarins da fama:
Mas as bênçãos dum povo agradecido
São melodia de suaves notas
Que por eras e eras se prolonga
Às gerações por vir. Um rei como este,
Dai-lhes um rei como João segundo;
E esquecido o tenaz republicano
De Brutos e Catões, ajoelha ao ceptro.
— Este fez explorar d’aurora os berços
Com baldados trabalhos, — que essa dita
Ao feliz Manuel o céu guardava.


X

Então reconta o sonho misterioso
Do venerando Ganges, do rei Indo
Que ao ditoso monarca, ao romper d’alva
Em visão bem fadada apareceram.
Diz a intentada, perigosa empresa
Que ousou de cometer; trabalhos, riscos
Na longa e lassa via suportados:
Moçambique, a traidora, castigada
Para escarmento e pena; e o temeroso,
Namorado gigante em dura terra
Por seus atrevimentos convertido,
E, por dobradas mágoas, rodeado
De Tétis formosíssima que amava:
Tétis que já cuidou de ter nos braços
Louco d’amores, única, despida,
Quando se achou c’um árido rochedo
De hórrido mato e de espessura brava.


Xl

Enfim chegados com ditoso auspício
Às melindanas praias, aqui finda
O ilustre Gama a narração pedida.
Já pazes firma e aliança amiga
Com o africano rei; e alfim nos mares
Índicos voga, demandando a terra
Que desejada já de tantos fora.


XII

Consumou-se a alta empresa; aberto é o Ganges
Aos galeões do Tejo. Em vão comprimem
Na treda Calecut traidores ferros
Ao Gama invicto os denodados pulsos:
Tudo vence a constância e nobre audácia
Do forte capitão. Coa alegre nova
Do descoberto Oriente, à meta austrina,
Outra vez cometendo os duros medos
Do mar incerto, põe a aguda proa.


XIII

Agora os sons do canto embrandecidos
Coas delícias de Pafos e Amatunte
Por namorados bosques, águas límpidas,
Fresquidões deleitosas vão soando.
— Eis vês a filha das cerúleas ondas,
A bela Vénus, que repoiso amigo,
Delicioso lhes traz; ilha divina
Onde quanto espalhou a natureza
Por mares, céus e terra em formosura,
Tudo ajuntou ali: capados bosques,
Coutos d’amena sombra; vicejantes
Relvas em que o primor de seus matizes
Esmerou Flora, e lhas bordou mais lindas
Que o próprio leito onde com doces beijos
Zéfiro lhe mitiga o ardor da sesta;
Murmurantes arroios, mansamente
Em seu correr, de amores conversando
Coas as dríades do bosque; os rubicundos
E dourados tesouros de Pomona...
Oh! que cena de lânguidos prazeres,
Que paraíso de deleite, ó Vénus!
Pelo travesso filho asseteadas
As esquivas nereidas suspirando,
Seguem a bela deusa, que promete
A suspirar tão doce um doce prémio.

 

XIV

Mas em mar leite navegando alegres,
Os esforçados nautas já descobrem
Entre a alva espuma das ambientes águas
Viçar a ilha formosa: — qual no seio
Lácteo - tremente da modesta noiva
Puro verdeja o esponsalício ramo.
Já proa e rumo para ali apontam;
Eis chegam, eis do encanto e maravilha
Absortos pasmam... pela sombra amena
Se embrenham, caça agreste procurando.
Mas ferida lha tinhas, Ericina,
Menos áspera já, mais doce e linda.
Correndo vão após as ninfas belas,
Que fogem, que se escondem, mas fugindo,
Nem tudo escondem; fogem, mas tão leve
Não corre o lindo pé que não tropece...
E caem... Certa amor canta a vitória,
Se lhe cai sobre a relva o fugitivo.
Oh! que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão macios!... Breve e rápido,
No seio do prazer se esvai o dia.

 

XV

Harpa sublime que n’altura soas
Das cumeadas da glória, harpa que os hinos
Fatídicos, nos ecos alongados
Do porvir enublado, obscura tanges,
Donde só vagos sons confusos coam
Na terra, esperdiçados por vulgares
Orelhas d’homens, — harpa misteriosa!
Clara te ouvia o vate sublimado
Quando as notas proféticas repete
Na remontada lira. — Etérea ninfa
Os porvindouros feitos e virtudes
Dos heróis Lusos no domado Oriente
Ao céu com doce voz está subindo.


XVI

Já voadores lenhos povoando
O vasto oceano que lhe abrira o Gama,
O senhorio dos frementes mares
Vitoriosos ocupam. Reis que ousados
A orgulhosa cerviz não dão ao jugo,
Do braço provarão que, forte e duro,
Os faz render-se a ele ou logo à morte.
O grão Pacheco, o lusitano Aquiles,
No passo Cambalão soberbas naires
Do Samorim potente desbarata:
Por vezes sete em áspera batalha
Triunfa em terra e mar. Eia, as coroas
Rei dos Lusos, os carros lhe prepara,
Que à pátria volve com despojos cento
A humilhar a teus pés. Que vejo! é essa
A púrpura que o cinge! é esse o templo
Onde em triunfo o conduzis, ingratos!
Num hospital, de andrajos vis coberto
Morre Pacheco do seu rei na corte...


XVII

Almeida vem depois co nobre filho,
Que do índico oceano as águas tinge
Do sangue imigo e seu. Atroz vingança
Corre co iroso pai: Dabul, Cambaia,
Enseadas de Diu, ei-lo no ferro
Destruidor vos traz exício e morte.
Inveja vil de pérfidos validos,
Não é tua esta vítima; seus ossos,
Não lhos possuirás, ingrata pátria.
Seu fado negro foi, mas antes ele;
Antes perder a vida às mãos selvagens
Do rudo cafre na deserta areia,
Que à fome... à fome, e no seu pátrio ninho!

 

XVIII

Mas oh! que luz tamanha que abrir sinto!
Luz é do fogo e das luzentes armas
Com que Albuquerque vence o altivo Persa.
Rende-te Ormuz, Gerum, Mascate e Goa.
Tu, Malaca opulenta, em vão te assentas
Lá no grémio da Aurora onde nasceste;
Em vão embebes venenosas setas
No arco certeiro, e os crises refalsados
Com peçonhas mortíferas temperas:
Malaios namorados, Jaus valentes,
Todos ao luso vencedor sucumbem.

 

XIX

Medina abominável, Meca tremem
Co nome de Soares; as extremas
Praias de Abássia tremem. Cede a nobre
Ilha de Taprobana; hasteado impera
Luso pendão nas torres de Columbo.


XX

Sequeira, os dous Menezes, e tu, forte
Mascarenhas, depois vireis de glória
Colmar, a mais e mais, o pátrio nome.
Pelo famoso Heitor, Sampaio vence
Frotas arábias. Baçaim se entrega
Ao Cunha ilustre. Ergue os altos muros
Sousa da insigne Diu; Castro o forte
O honrado, o vencedor, o triunfante,
Castro os defende. Maior nome em glória,
Em virtude, inteireza e amor de pátria
Jamais pronunciarão homens da terra.


XXI

Tágides belas, que em meu verso humilde
Os ecos reflectis da voz celeste,
Das imortais canções que lhe inspirastes,
Não mais, não mais que me falece o alento.
Na extenuada lira os sons se quebram,
Como suspiros de oprimido peito.
Diga Urânia bela aos seus validos
Que segredos lhe disse das esferas,
Da vastidão dos orbes, do mistério
Da criação inteira: eu vate humilde
Que só de longe respeitoso sigo
O divino cantor, não ouso a tanto.

 

XXII

Da ilha namorada o Gama invicto
Singrando vem para o seu pátrio Tejo;
E o Tejo recebeu do Indo e Ganges
Preito rendido e tributário feudo.

 

                                            CANTO NONO


           Mas quem pode livrar-se porventura
           Dos laços, que amor arma brandamente
                                                      
                                                   Lusíadas


I

Não sabia em que modo lhe mostrasse
Ao vate sublimado o rei mancebo,
O entusiasmo, o vivo prazer d’alma
Que lhe inspiraram as canções divinas.
Louva a escolha do assunto, a arte engenhosa
Que num só quadro majestoso e grande
Todos uniu da portuguesa história
Os memorandos feitos, varões dignos
De eternidade e fama: louva o ‘stilo
Nobre e tarso, de pompa ou singeleza,
Qual o pede a matéria; o sacro fogo
Do pátrio amor, de glória, de heroísmo
Que, dum por um, nos versos lhe cintila
De cortesãos, aplaudem co monarca
Alguns; outros sinceros congratulam
O trovador moderno que descanta
Na doce lira o que perfaz coa espada
Transborda em júbilo a alma generosa
Do honrado Menezes. Mas não faltam
Ao pé do sólio nunca — inda mal! nunca —
Peitos vis, corações à glória alheios.
Por esses lavrou logo a inveja, o ódio
Ao cantor dos Lusíadas: não sofre
Vício e ignorância que virtude e mérito
Apreciados sejam, conhecidos.
Fingem no entanto, que fingir é arte Máxima de palácios...


II


                              — «Folguei muito»
Dizia o rei, e o gesto abraseado
A verdade do dito afiançava:
«Folguei de ouvir-vos; nunca tal virtude
Em versos cri para exaltar o ânimo
Ao sublime entusiasmo da virtude,
Aos feitos grandes. Sinto que me bate
Com mais vigor o coração no peito. A
lma terá pequena e bem mesquinha
O português que não mover tal canto.»
Assim dizia o rei: caminho vinham
Dos paços, despediu-se o heróico vate;
E o mancebo real: — «Voltai a ver-me,
E vos farei mercê, como é devido.»
Entrou a corte pelos átrios régios.


III

Rápido ia o sol no céu descendo:
O guerreiro cantor volve a embrenhar-se
Pela espessura e bosques. Não esp’ranças
De melhor sorte, não lisonjas doces
De amor próprio, mais doces quando ouvidas
De lábios de monarcas: não promessas
De merecido prémio, — nada agita
O sangue do esforçado navegante.
Se ideias tais despontam, breve as sorve
Remoinho de encontrados pensamentos
Que do ansiado espírito lhe travam.
A mensagem, a carta misteriosa
Revolve, e as circunstâncias; as palavras,
Interpretá-las quer. — Em vão; não podem
As conjecturas mais: força é do dia
Aguardar impaciente o lento ocaso.


IV

No mais erguido cume da alta serra
Que disseram da Lua eras antigas,
De fábrica mourisca se alevanta
Castelo hoje em ruínas derrocado.
Escassa ameia vês em pé suster-se
No escalavrado muro. Já trabucos,
Dos séculos depois vaivém mais duro
Pelas íngremes rocas dispersaram
As pedras que talhou a mão dos homens
Outrora dessas rocas, para alçá-las
Em torreões de morte: — ímpia fadiga
Trabalho ímprobo e duro! A asa do tempo
Voando passa, e varre a obra do homem
De sobre a face da esquecida terra.


V

E disseras que de homens como os de hoje
Não puderam ser obra esses vestígios
Do imenso Babel que vês prostrado.
A braços de gigante sobreposto
Monte a monte parece; arrebatada
Por anjos infernais a roca antiga
Que ao prumo a descaíram — e fixada
No encantado equilíbrio, desafia
Forças da natureza e arte dos homens.
Mouro é o mais do que vês, e a doble cerca
Do castelo, e a cisterna que às devotas
Abluções, ali perto da mesquita,
Suas águas filtradas ministrava.
E essa que, de tão longe a Meca olhando,
Ouviu as derradeiras coxas preces
Que ao surdo Alá mandava aflito crente
Quando já sobre as asas da vitória
Cruz inimiga remontava à altura,
As humilhadas Luas arrojando
De precipício em precipício ao abismo;
Essa inda em pé, no meio das ruínas
Desmanteladas, seu fiel cimento,
Tenaz na antiga fé, guardando ainda,
No azul que em sua glória lhe vestiram,
As estrelas do Yaman e os enlaçados
Caracteres do Hydjaz!...

 

VI

Árabe é todo
O aspecto que estás vendo. Mas atenta
Aí nessas quebradas menos duras
Como a pique se tem negro, inteiriço
Céltico dólmen recordando o culto
Do sanguento Endovélico, o terrível
Irminsulf dos ferozes Lusitanos.
VII

Talvez permite AQUELE que de tudo
É norma eterna e lei, assim durarem
Quaisquer memórias que o respeito, a crença,
Errada embora, dos mortais levante
Em Seu nome... Das fábricas dos homens
Morredouras como ele — estas resistem
Mais do que nenhumas ao minar do tempo.


VIII

Ali, no mais solene das ruínas
E no mais alto, ali num canto ainda
Sólido da muralha fabricara
Solitário habitante desses ermos
Mansão tranquila e só. Musgosas plantas
Crescem nas fisgas do cimento antigo.
Tapeçaria de heras verdejantes
Forra a cortina da parede bronca
E em caídos festões se balanceia
Sobre a entrada do lôbrego retiro.


IX

Tradição é que nomeado vate
D’alta beldade misterioso amante,
Entre as fragas erguera a mansão triste,
Onde cevou de tristes pensamentos.
O coração cortado de saudades.
Saudade pelas pedras entalhada
Se lia em caracteres bem distintos;
E o nome de Beatriz, também gravado
Na sílica do monte, lhe responde,
Como eco das endechas namoradas
Do cantor da soidão. Sentado viram
O génio da montanha, alvas trajando
Roupas de nuvem, dar ouvido atento
Às canções magoadas e suavíssimas
De Bernardim saudoso e namorado.
Bernardim, que das musas lusitanas
Primeiro obteve a c’roa d’alvas rosas,
Com que — em seu mal — romântico alaúde
Engrinaldou para cantar amores
Doces d’alta princesa, — inda mais doces
Favores, que indiscretos revelaram
Êxtase d’alma em derretidos cantos.
Fragueiros inda vivem que de vê-lo
Se acordam pela noite andar vagando
Por os picos da serra no mais alto,
Ora ternas carícias dando ao vento,
Ora imprecando com furor as rocas,
E a miúdo suavíssimas cantigas
De apaixonado assunto modulando.

 

X

Súbito um dia, de bordão na dextra,
Na opa de peregrino disfarçado
Desce os montes da Lua, e mais erguidas
Serras demanda; em romaria aos Alpes
Parte, a levar o coração votado
A quem talvez, na púrpura, suspira
Pelos andrajos do mendigo amante.
Vê-lo-á, o objecto de suspiros tantos,
De saudade tão longa, da romagem
Devota; mas só vê-lo, — e adeus eterno,
E para sempre adeus!... Cruéis lhe vedam
Mais que esse adeus. Voltou à pátria, e morre.


XI

Este foi da poisada solitária
O fundador e o único vivente
Que desde então as frias cumeadas
E ruínas habitou da antiga torre.
E este era o sítio que aprazava a carta
De incógnita mensagem ao guerreiro.


XII

Alfim no oceano se mergulha a lâmpada
Do firmamento máxima. Descia,
Como um véu, a nebrina sobre a serra;
Já lhe toucava a frente, e ia ligeira
Pela espalda, insensível devolvendo,
Té lhe poisar as orlas na planície.
No meditar profundo embevecido,
O guerreiro, que aguarda há muito a hora
Lenta da noite, não deu fé da névoa
Que húmida todo em derredor o fecha.
Despertou-o a frieza inesperada
Que no alto das montanhas vem coa noite.
Como no seio envolto de uma nuvem
Misteriosa se cuida; — olha d’em torno,
Nada vê, tudo encobre a névoa espessa;
Nada vê, mas distinta uma voz ouve:
—Cumprido é o sonho, mas quebrando o encanto:
Ainda a viste, — única vez na terra!
Nunca mais a verás. O véu, qu’é dele?
E a trança que, ao sepulcro sonegada,
Prenda foi de ternura?
                                  «Ei-la comigo,
Sempre comigo. Restituí-la à campa,
Quando à campa descer, a mim só cabe.
Mas quem de meus segredos sabe tanto?
Quem d’amor os mistérios e os da morte
Penetra assim? Do número dos vivos
És tu, ou do moimento há suscitado
Poder fatal as cinzas dos finados Para me interrogar!»
 — «Vivo eu, sou vivo:
Conhece-me, sou eu, teu inimigo,
Teu inimigo hei sido; e eterna a vida,
Se cruz, para tormento, os céus ma dessem.
Toda a odiar-te, inteira a aborrecer-te
Pouca seria. Tu só me roubaste
Aquele coração: tu sim, tu foste.
Tu mo roubaste, que, sem ti, meu fora.
Em vida te adorou; na morte... A morte,
Quem, senão tu, à ingrata lha há causado?
Saudades a privaram da existência.
Consola-me que ao menos não gozaste
Tanto amor, tanta fé, tanta beleza,
Que não mer’cias não. Se digno dela
Houve mortal, a mim, que não a um...»
                       «Conde!»
Bradou convulso, e a mão ao ferro leva
O insofrido guerreiro. Mas tranquilo
O rival lhe tornou: — «Sois ofendido?
Desafrontai-vos; ferro e braço tendes.
Nem vos fujo eu: porém a minha espada
Jamais demandará um peito que ela...
Sim, que ela amou. Transviou-me a paixão d’alma;
Bebera o sangue que essas veias gira,
Que nesse coração bate coa vida:
Mas veda-o juramento sacrossanto;
Guardá-lo-ei. — Maior é o sacrifício
Que prometi, maior.»

 

XIII

                      Tira um retrato
Do seio: olhos sanguíneos, arrasados
De despeitosas lágrimas, cravava
Na pintura; — com ímpeto os afasta
Logo, e diz — Cumprirei o que hei jurado
Houve-o de suas mãos este depósito
Nas derradeiras horas: confiada
A um rival generoso foi a extrema
 Vontade sua; força é dar-lhe inteira
Execução, qual à minha honra cumpre.
Ei-lo aqui, o legado precioso;
Pela mão do inimigo amor to entrega.»


XIV

Comovido do íntimo do peito,
Magoada vista punha no retrato
O guerreiro, em cuja alma combatiam
Paixões tão desvairadas, tão confusos
Sentimentos e afectos, que expressá-los
Não saberia o coração que os sente.
«Prenda cruel d’amor, dádiva infausta...
Antes querida!...» Aqui parou cortado,
Coas ideias, o fio das palavras.
Mas continuou depois:
                           — «Forçais-me, conde,
Mais que a admirar-vos: o ódio que me tendes,
Generoso rival, não me é possível
Abrir-lhe o peito, não. Odiai-me embora,
Que vos amarei eu, mau grado vosso.
O retrato... Oh! jamais não será dito
Que em pontos de honra e generoso brio
Fique Luís de Camões de outrem vencido.
Guardai-o vós, senhor, guardai-o: é vosso:
A um inimigo tal amor o cede.»

 

XV

Suspensos, mudos ambos se entr’olhavam
Os dois rivais briosos que alta prova
Assim do nobre peito heróica davam
Em magnânimo duelo de virtude.
No rosto ao conde as rugas se alisavam
Que ciosos rancores lhe frangeram;
E bem se via que os jurados ódios
Ao generoso feito se rendiam.
Lutaram todavia; mas vitória
Em peito bem nascido há sempre o brio.
— Venceste, cavaleiro; as armas ponho.
Façanha heis feito de homem, que imitada
De muitos não será. Meu rapto é nulo,
Por vencido me dou em leal batalha;
De mim disponde.
             Avaliar o preço
De tais momentos, corações só podem
Grandes como esses dois tinham no seio.
O guerreiro estendeu os braços. — Cai-lhe
Nos braços o brioso antagonista.
Palavras não disseram: onde há língua
Com próprios termos para instantes desses?


XVI

Como inimigos foram, são amigos.
Juntos choraram; juntos, esse objecto
Que em vida os desuniu, na morte carpem.
Separaram-se alfim. — «Não deis ouvidos»
Disse o conde ao guerreiro, à despedida:
«A louvaminhas tredas de palácios,
E a promessas de corte. Hoje estivestes
Com el-rei; grande fama heis alcançado
E favor do monarca: mas dobradas
Serão as malquerenças de inimigos,
Os ódios da ignorância e vis conluios
Da inveja negra e má. Por dom Aleixo
Entrast’ a el-rei; — mal acertada porta.
Contai co desfavor dos precatados
Validos que governam. Por honrado
Vos terão e virtuoso: abonos tendes
Em qualidades tais para seu ódio.»

XVII

Próximo o dia não tardou no oriente;
Volve ao paço o guerreiro. Era partida
Para Lisboa a corte. Na poisada,
Cuidadoso da delonga, o missionário
Com ânsia o aguardava: ambos caminho
Da lusitana capital se foram.

XVIII

Correra a fama do louvor, do preço
Que dera o rei ao sublimado Canto.
Pronto se oferece quem germanas artes
Em dar-lhe vida e propagá-lo empregue.
Doutos e indoutos com geral aplauso
Viram do novo Homero o canto insigne
Que à pátria glória monumento augusto
Sublime erguia. Soa o brado ingente
Já pela Europa; e o nome lusitano
Ao nome de Camões eterno se une.

 

 

                                     CANTO DÉCIMO

 


          «Que exemplos a futuros escritores» 

                                             Lusíadas

 

I


O Tejo o ouviu no algoso de suas grutas,
E em despeitoso brado lhe responde.
Gemem as ninfas que o lidado canto
Inspirado lhe haviam, e em suas telas
Com tristes, negras cores debuxaram
A injúria, o crime, a ingratidão tão feia
Que indelével nos fastos portugueses
É mancha horrenda e vil...

II


Arqueja exangue, Definha à míngua, só, desamparado
Dos amigos, do rei, da pátria indigna,
O cantor dos Lusíadas. — Ah! como!
Qu’é das gratas promessas do monarca?
Qu’é de tanta esperança lisonjeira?
Perfídia baixa e crua, onde hás pousado?
No coração da inveja e da ignorância,
Do fanatismo bárbaro. Soaram
Tremendos nos ouvidos criminosos
Dos cortesãos hipócritas e astutos
Os livres sons do nobre patriotismo
Com que a treda impostura d’ímpios bonzos
E a tirania infame de validos
O guerreiro cantor asseteara.
Nas cavernas do peito refalsado
Ódio cego lh’entrou; os beiços roxos,
Áridos com a sede da vingança,
Mordem convulsos. Nunca tão terrível,
Nua a verdade lhes mostrou seus crimes,
Como na boca desse vate ousado.


III

Vingar-se é força; mas vingança negra,
Feia e covarde a querem. — «Sem amigos,
Sem protectores, pobre, sem arrimo,
À indigência, à miséria aí sucumba,
E de sua ousadia o crime expie.»
Assim no coração lhes fala o ódio;
E o cumpriram assim. Todo no apreste
Da jornada fatal andava o ânimo
Do malfadado moço que em sua cólera
Rei dera o céu ao povo lusitano.
Só armas cura, só vitórias sonha:
Geme entanto a nação, quase pressaga
Do desastre que a aguarda. Em Sintra fora
Resolvida afinal pronta partida,
Que o monarca impaciente apressurava.


IV

De tal resolução ignaro o vate
A Lisboa chegara; o paço busca,
Ninguém o atende; o virtuoso Aleixo
Procura... No palácio já não vive:
Tão livre sustentou, tão nobre e firme
Seu parecer contra a jornada infausta,
Que irado Sebastião de si o aparta;
E triunfando da virtude a intriga,
Por traidor e revel, ao cego jovem
Seus inimigos infames o afiguram.
Triste deixou as casas venerandas
De seus reis, onde quase um sec’lo o viram,
Não coitar-se na púrpura, mas dar-lhe
Mais brilho e honra com leais virtudes.


V

Ao guerreiro cantor foi esta nova
Triste presságio, corte d’esperanças.
Corre audiências em vão; — vazio é o trono.
Frio ministro em nome do monarca
Ouve indiferente as súplicas do povo.
Entre a ignorada turba é confundido
De tristes, desprezados pretendentes
O divino Camões...


VI
 
                                    Entanto as velas
Já pelo Tejo undívago branqueiam;
As falanges de intrépidos guerreiros
Cobrem suas longas praias. Lamentando
Estão d’em torno as mães, estão esposas
Os filhinhos nos braços amostrando
Aos pais, que o gesto angustiado voltam
Para os não ver, que se lhes parte alma.


VII

Mas quem são esses dois, que aí na praia
Tão estreitos se abraçam? Correm lágrimas
Por olhos que a vertê-las não costumam;
Em peitos se reprime o adeus sentido,
Peitos que o não contêm.
 — Adeus!... A vida
É mais difícil, filho, do que a morte:
Suportai-a; mostrai-lhes que sois homem,
Que sois cristãos: perdoai...»
    «Perdoar eu!... Nunca.
Malvados que me roubam tal amigo!
Único amparo só que me restava;
Que d’envolta coa pátria, coas esp’ranças
Dum povo inteiro, a vil sepulcro o levam!
Oh! Perdoar-lhes, nunca: o derradeiro
Acento de meus lábios moribundos
Será de maldição sobre essas frentes
Carregadas de crime.»
 — Perdoai-lhes,
Perdoai: a afronta própria é juiz suspeito.
«A minha afronta, oh essa, eu lha perdoo.
Mas a da pátria...»
— Adeus, adeus!
Chegava
El-rei então; sinal de partir soa:
E o vate e o missionário assim findaram
Sua triste despedida; — que mandado
Acompanhar a armada o monge fora
Repentino, essa note. O tredo fio
Descobrira o cantor da vil intriga;
Mas o paciente filho do Evangelho
Resignado se inclina à Providência,
E seus decretos humilhado adora.

 

VIII

Fora em efeito o ódio dos validos
Que ao infeliz Camões arrebatara
Protectores e amigos. Desterrado
Por eles o virtuoso e nobre Aleixo;
Por eles enviado à certa ruína
Que ao malfadado rei, à flor do exército,
À Pátria, nas areias escavaram
De África adusta, o missionário fora.


IX

Já se movem as naus; e as altas pontes
Se ouriçam de belígeras falanges.
Redobra o pranto — âncora sobe, antenas
Se expandem... Lá te vás, e para sempre!
Nas pandas asas dos traidores ventos,
Independência, liberdade e glória.


X

«Que me resta j’agora?» os olhos longos
Para a frota que perde no horizonte,
Consigo o vate diz «O que me resta S
obre a terra dos vivos? Um amigo,
Um amigo, neste árido deserto
Da vida me falece. Um bordão único
A que me arrime na escabrosa senda,
Me não ficou. O número está cheio
De meus dias, contados por desgraças,
Marcados, um por um, na pedra negra
De fado negro e mau. Posso eu acaso
Nos corações contar dos homens todos
Uma só pulsação que por mim seja?
Posso dizer...» — Gemido, que ouve perto,
O interrompeu: era o seu Jau que aflito
O escutava: do humilde e pobre escravo
O coração fiel se retalhava
De ouvi-lo assim queixar: — «Ah! se eu não fora»
— Com os olhos e as lágrimas dizia;
Com os olhos, que os lábios não ousavam
— Ah! se eu não fora um desgraçado escravo,
Que coração que eu tinha para dar-lhe!


XI

Tu, generoso amo, lhe entendeste
Seu falar mudo, seu dizer de lágrimas,
«Tens razão; injustiça é grande a minha:
Inda tenho um amigo.»
Pausa longa
Seguiu estas palavras; e no peito
Ao generoso António desafoga
O coração que lhe apertava a mágoa;
Nos olhos, rasos do chorar ainda,
A alegria lhe ri por entre o pranto,
E o amo, a quem sinais de tanto afecto
Movem no íntimo d’alma, sente um golpe
De bálsamo cair-lhe sobre as chagas
Do coração lanhado, a dextra lânguida
Poisa no ombro fiel, o peito encosta
Sobre o peito leal do amigo... «Amigo
Direi, amigo sim: peja-te o nome,
Orgulho do homem vão, por dado ao escravo?
E que és tu mais?» Era de ver, e digno
Espectáculo adonde se cravassem
 Os olhos todos dessa raça abjecta
Que se diz de homens, a figura nobre
Do guerreiro, em que toda se debuxa
A altivez, a grandeza, a força d’ânimo,
Com o andrajoso, humilde e pobre escravo
Em atitude tal. Rira-se o mundo;
O homem de bem, de coração, chorara.

 

XII

«Oh meu amigo, oh meu António» disse,
No remendado seio a face altiva
Escondendo, o guerreiro: Oh! esta noite
Aonde, em que poisada a passaremos?»
«Meu bom senhor, um gasalhado tenho
Achado já; que bem vi que não íeis
Nunca mais ao mosteiro. Digno, certo,
De vós não é; mas sabeis...»
   «Sei, amigo, Que só tu, neste mísero universo,
 — E o sepulcro também — alfim me restam»

 

XIII

Juntos à margem vão do Tejo andando
A lento passo. A noite era formosa,
Clara e brilhante a lua. Oh! que memórias
N’alma do vate, esse astro, a hora, o sítio
Não suscitam amargas? Perto passa
Daquela gelosia, aquela mesma
Donde os doces penhores, donde a carta
Recebera fatal. Quão demudada,
Quão diferente está do que já a vira,
Essa praia tão plácida e saudosa!
Um plátano frondoso que i crescia,
Em cujo liso tronco tantas vezes S
e encostou, aguardando a hora tardia,
— Prazo dado d’amor, que é tardo sempre!
Cuja sombra, em luar pouco propício
A amantes, o ocultou de agudas vistas
De curiosos profanos e inimigos...
Ai! seca jaz em terra, e despojada
De viço e folhas a árvore querida.
Tudo, tudo acabou, menos a mágoa,
Menos a saudade que o consome.

 


XIV
Sua pobre habitação os dois entraram;
E tristes horas, dias, meses passam
Arrastados e longos, — qual o tempo
Para infelizes anda — sem que a sorte
Mais ditosos os visse, ou a amizade
Menos unidos. — Mas a mão tremente,
Encarquilhada e seca já sobre eles
Ia estendendo a pálida indigência;
E a fome... a fome alfim. — Clamor pequeno
Que de minhas endechas ténue soa,
Se junte aos brados das canções eternas
Com que o teu nome, generoso António,
Já pelo mundo engrandecido ecoa.
Vêde-o, vai pelas sombras caridosas
Da noite, de vergonhas coitadora,
De porta em porta tímido esmolando
Os chorados ceitis com que o mesquinho,
Escasso pão comprar. Dai, Portugueses,
Dai esmola a Camões. Eternas fiquem
Estas do estranho bardo memorandas,
Injuriosas palavras, para sempre
Em castigo e escarmento conservadas
Nos fastos das vergonhas portuguesas.


XV

Não pode mais o coração coa vida;
E lenta a morte co enfezado sangue
Caminho vem do peito. O espaço mede
Que lhe resta na arena da existência;
Perto a barreira viu... Aí jaz o túmulo,
Chegado é pois o dia do descanso...
Bem-vinda sejas, hora do repoiso!
Com a trémula mão tenteia as cordas
Daquela lira onde troou a glória,
Onde gemeu amor, carpiu saudade,
E a pátria... — oh! e que pátria os céus lhe deram!
Of’rendas recebeu de hinos celestes:
Pela última vez as cordas fere,
E este adeus derradeiro à pátria disse,
Cortando-lhe o alento enfraquecido
Agora os sons, agora a voz quebrada:

 

XVI

«Terra da minha pátria! abre-me o seio
Na morte ao menos. Breve espaço ocupa
O cadáver dum filho. E eu fui teu filho...
Em que te hei desmer’cido, ó Pátria minha?
Não foi meu braço ao campo das batalhas
Segar-te louros? Meus sonoros hinos
Não voaram por ti à eternidade?
E tu, mãe descoroável, me enjeitaste!
Ingrata... Oh! não te chamarei ingrata;
Sou filho teu: meus ossos cobre ao menos,
Terra da minha pátria, abre-me o seio.

 

XVII

«Vivi: que me ficou da vida, agora
Que baixo à sepultura? Não remorsos,
Vergonhas não. Para a corrida senda
Sem pejo os olhos de volver me é dado,
E tranquilo direi: vivi; — tranquilo
Direi: morro. Não dormem no jazigo
Os ossos do malvado? Não: contínuo,
Na inquieta campa estão rangendo
Ao som das maldições, deixa de crimes,
Legado ímpio dos maus. Eu sossegado
Na terra de meus pais hei-de encostar-me...


XVIII

«Já me sinto ao limiar da eternidade:
Véu que enubla, na vida, os olhos do homem,
Se adelgaça; rasgado, os seios me abre
Do escondido porvir... Oh! qual te hás feito,
Mísero Portugal!... oh! qual te vejo,
Infeliz pátria! Serves tu, princesa,
Tu senhora dos mares!... Que tiranos
As águas passam do Guadiana? A morte,
A escravidão lhes traz ferros e sangue...
Para quem? Para ti, mesquinha Lísia.

 

XIX

«Que naus são essas que ufanosas surcam
Pelo esteiro do Gama? Pendões bárbaros
Varrem o Oceano, que pasmado busca,
 Em vão; nas popas descobrir as Quinas.
Em vão; da haste da lança escalavrada
Roto o estandarte cai dos portugueses.


XX

«Cinza, esfriada cinza é todo o alcáçar
Da glória lusitana... Uma faísca,
Esquecida a tiranos, lá cintila:
Mas quão débil que vens, sopro de vida!
Um só momento com vigor no peito
O coração te pulsa. Exangue, enferma
Só te ergues desse leito de miséria
Para cair, desfalecer de novo.

 

XXI

«Onde levas tuas águas, Tejo aurífero?
Onde, a que mares? Já teu nome ignora
Neptuno, que de ouvi-lo estremecia.
Soberbo Tejo, nem padrão ao menos
Ficará de tua glória? Nem herdeiro
De teu renome?... Sim: recebe-o, guarda-o,
Generoso Amazonas, o legado
De honra, de fama e brio: não se acabe
A língua, o nome português na terra.
Prole de Lusos, peja-vos o nome
De Lusitanos? Que fazeis? Se extinto
O paterno casal cair de todo,
Ingratos filhos, a memória antiga
Não guardareis do pátrio, honrado nome?
Oh Pátria! oh minha Pátria...»

 

XXII

                  A voz, que afrouxa,
Interromperam sons desconhecidos
De voz de estranho que a estância humilde
Entra do vate: «Perdoai se ousado
Entrei, senhor, mas...»
 «Quem sois vós? Há inda
Homem no mundo que a poisada obscura
De um moribundo saiba?»
 — «Cavaleiro, Desde o alvor da manhã que vos procuro:
De África hoje cheguei...»
  «Ah! perdoai-me.
Sois vós, conde? Voltaste? E que novas
Me trazeis?»
 — «Tristes novas, cavaleiro.
Ai! tristes. Desta carta, que vos trago,
Sabereis tudo.» — Ao vate a carta entrega:
Do missionário era, que dos cárceres
De Fez a escreve. Saudoso e triste,
Mas resignado e plácido, lhe manda
Consolações, palavras de brandura,
De alívio e de esperança. — Extinto é tudo
Nesta mansão de lágrimas e dores»
— As letras o dizem — tudo; mas a pátria
Da eternidade, só a perde o ímpio.
Deus e a virtude restam: consolai-vos...»


 
 XXIII
 
«Oh! consolar-me» exclama, e das mãos trémulas
A epístola fatal lhe cai: «Perdido
É tudo pois!... «No peito a voz lhe fica;
E de tamanho golpe amortecido
Inclina a frente... como se passara,
Fecha languidamente os olhos tristes.
Ansiado o nobre conde se aproxima
Do leito... Ai! tarde vens, auxílio do homem.
Os olhos turvos para o céu levanta;
E já no arranco extremo: — «Pátria, ao menos
Juntos morremos...» E expirou coa pátria.
«Onde jaz, Portugueses, o moimento
Que do imortal cantor as cinzas guarda?
Homenagem tardia lhe pagastes
No sepulcro sequer... Raça d’ingratos!
Nem isso! nem um túmulo, uma pedra,
Uma letra singela! — A vós meu canto,
Canto de indignação, último acento
Que jamais sairá da minha lira,
A vós, ó povos do universo, o envio.
Ergo-me a delatar tamanho crime,
E eterna a voz me gelará nos lábios.
Lira da minha pátria onde hei cantado
O lusitano — envilecido — nome,
Antes que nesse escolho, em praia estranha,
Quebrada te abandone, este só brado
Alevanta final e derradeiro:

Nem o humilde lugar onde repoisam
As cinzas de Camões, conhece o Luso.

 


In Camões
Almeida Garrett
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