Hoje que nada sou e nada quero,
Relíquia inútil de quem nunca fui,
Eu que meu fim, sem resignar-me, ‘spero
E nada sou do que foi eu em mim,
Aqui, onde este rio obscuro flui,
Quero, sentindo-o ir, ser eu enfim…

Desejo, sem esperança, ver correr
Estas inertes águas fugidias,
Servo de nada ter e nada ser,
E sem esperança ver passar sem forma
O curso inútil dos inúteis dias
Que são a minha vida e a minha norma.

Outrora havia outra esperança minha,
Outra era a vida que teria aqui,
Mas a quem coroaram por rainha
Caiu, por falsa e vil a coroa infiel.
E assim a taça de ouro do que eu vi,
Quando a ergui à boca, tinha fel.

 

1 - 2 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar