Supõe que morres amanhã.
Que olhar hoje, na despedida,
Darás a esta cousa,
Subitamente, que é a vida?

Terás um súbito desejo
De ter o mundo todo a encher,
Feroz do limitado ensejo,
O momento último de ver.

Pois isso faze: assim, raivoso
De toda a ampla glória vã
Do mundo embriaga o olhar nervoso.
Morres deveras amanhã.

27 - 11 - 1932

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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