Sim, a música, e já a mulher
Não gosta tanto do marido.
O amante ausente vem bater
À janela onde foi querido. . .

Sim, a música.. Era melhor
Que a vida fosse sem trabalho..

Tudo o que temos é engano.
A música! Que Diabo! Faz
Surgir um coração humano
Do corpo aonde a alma jaz.

Como se há-de ir fazer chá eterno
E ter dever ao pé de si,
Quando este encanto vem do inferno?
Serpente, ainda estás aqui!

 

16 - 3 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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