A vida inútil que vivi e vivo
Levo-a nos braços como um peso morto,
Com um esforço desnaturado e esquivo,
Como um navio que não quer um porto,

E como um fardo que não era meu
Deponho-me ao onde-calha do caminho
Fiel ao princípio do que sou só eu
E de que o mais é só com o vizinho.

Mas de entre os ramos do arvoredo nasce
Um canto de ave que me não conhece.
Oiço, sorrio, em mim meu ser renasce,
E ergo de novo o fardo, ainda que pese.

9 - 9 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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