A D. Antnio de Noronha, sobre o desconcerto do mundo
 
Quem pode ser no mundo to quieto,
ou quem ter to livre o pensamento,
quem to exprimentado e to discreto,
to fora, enfim, de humano entendimento
que ou com pblico efeito, ou com secreto,
lhe no revolva e espante o sentimento,
deixando-lhe o juzo quase incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?

Quem h que veja aquele que vivia
de latrocnios, mortes e adultrios,
que ao juzo das gentes merecia
perptua pena, imensos vituprios,
se a Fortuna em contrrio o leva e guia,
mostrando, enfim, que tudo so mistrios,
em alteza d'estados triunfante
que, por livre que seja, no se espante?

Quem h que veja aquele que to clara
teve a vida que em tudo por perfeito
o prprio Momo s gentes o julgara,
ainda que lhe vira aberto o peito,
se a m Fortuna, ao bem somente avara,
o reprime e lhe nega seu direito,
que lhe no fique o peito congelado,
por mais e mais que seja exprimentado?

Demcrito dos deuses proferia
que eram ss dous: a Pena e Benefcio.
Segredo algum ser da fantasia
de que eu achar no posso claro indcio;
que, se ambos vm por no cuidada via
a quem os no merece, e grande vcio
em deuses sem-justia e sem-razo.
Mas Demcrito o disse, e Paulo no.

Dir-me-eis que, se este estranho desconcerto
novamente no mundo se mostrasse,
que, por livre que fosse e mui experto,
no era de espantar se me espantasse;
mas que se j de Scrates foi certo
que nenhum grande caso lhe mudasse
o vulto, ou de prudente, ou de constante,
que tome exemplo dele, e no me espante.

Parece a razo boa; mas eu digo
que este uso da Fortuna to danado
que, quanto mais usado e mais antigo,
tanto mais estranho e blasfemado;
porque se o Cu, das gentes to amigo,
no d Fortuna tempo limitado,
no para causar mui grande espanto
que mal to mal olhado dure tanto.

Outro espanto maior aqui me enleia:
e que, conquanto Fortuna to profana
com estes desconcertos senhoreia,
a nenhũa pessoa desengana.
No h ningum que assente nem que creia
este discurso vo da vida humana,
por mais que filosofe nem que entenda
que algum pouco do mundo no pretenda.

Digenes pisava de Plato,
com seus srdidos ps, o rico estrado,
mostrando outra mais alta presuno
em desprezar o fausto to prezado.
«Digenes, no vs que extremos so
esses que segues de mais alto estado
que, se de desprezar te prezas muito,
pretendes do mundo fama e fruito?»

Deixo agora reis grandes, cujo estudo
e fartar esta sede cobiosa
de querer dominar e mandar tudo,
com fama larga e pompa sumptuosa.
Deixo aqueles que tomam por escudo
de seus vcios e vida vergonhosa
a nobreza dos seus antecessores,
e no cuidam de si que so piores.

Deixo aquele a quem o sono esperta
do gro favor do rei que serve e adora,
que se mantm desta aura falsa, incerta,
que dos coraes tanto senhora.
Deixo aqueles que esto coa boca aberta,
por se encher de tesouros, de hora em hora,
doentes desta falsa hidropesia
que, quanto mais alcana, mais queria.

Deixo outras obras vs do vulgo errado,
a quem no h ningum que contradiga,
nem doutra cousa algũa e sojugado
que de ũa opinio e usana antiga.
Mas pergunto ora a Csar esforado,
ou a Plato divino, que me diga,
este das muitas terras em que andou;
estoutro, de venc-las, que alcanou.

Csar dir: «Sou dino de memria;
vencendo vrios povos esforados
fui monarca do mundo, e larga histria
ficara dos meus feitos sublimados».
verdade; mas esse mando e glria
lograste-o muito tempo? Os conjurados
Bruto e Cssio o diro que, se venceste,
enfim, enfim, s mos dos teus morreste.

Dir Plato: «Por ver o Etna e o Nilo
fui Siclia, ao Egipto e a outras partes,
s por ver e escrever em alto estilo
da natural cincia em muitas artes.»
O tempo breve. E queres consumi-lo,
Plato, todo em trabalhos? E repartes
to mal de teu estudo as breves horas
que, enfim, do falso Febo o filho adoras?

Que monta mais mandar que ser mandado?
que monta mais ser simples que sabido,
se tudo enfim tem trmino forado,
se tudo est aos Fados sometido?
Do mando o temor vem que experimentado
assi foi por Democles e entendido.
Do saber, como o canta Salamo,
vm os trabalhos, vem a indignao.

Pois quando do mundo est apartada
a alma, desta priso terrestre e escura,
est em tamanhas cousas ocupada
que da Fama, que fica, nada cura.
Pois se o corpo terreno sinta nada,
o Cnico o dir, se porventura
no campo, onde deitado morto estava,
de si os ces e as aves enxotava.

Quem to baixa tivesse a fantasia
que nunca em mores cousas a metesse
que em se levar seu gado fonte fria
e mungir-lhe do leite que bebesse,
quo bem-aventurado que seria!
Que, por mais que Fortuna revolvesse,
nunca em si sentiria maior pena
que pesar-lhe da vida ser pequena.

Veria erguer do sol a roxa face,
veria correr sempre a clara fonte,
sem imaginar a gua donde nace,
nem quem a luz esconde no horizonte.
Tangendo a frauta donde o gado pace,
conheceria as ervas do alto monte;
em Deus creria, simples e quieto,
sem mais especular nenhum secreto.

De um certo Trasilau se l e escreve,
entre as cousas da velha Antiguidade,
que perdido um gro tempo o siso teve
por causa dũa grande infirmidade;
e enquanto, de si fora, doudo esteve,
tinha por teima e cria por verdade
que eram suas as naus que navegavam,
quantas no porto Preo ancoravam.

Por um senhor mui grande se teria
- alm da vida alegre que passava -
pois nas que se perdiam no perdia,
e das que vinham salvas se alegrava.
No tardou muito tempo quando, um dia,
Huncrito, seu irmo, que ausente estava,
terra chega; e vendo o irmo perdido,
do fraternal amor foi comovido.

Aos mdicos o entrega, e com aviso
o faz estar cura refusada.
Triste, que por tomar-lhe o caro siso
lhe tira a doce vida descansada!
As ervas apolneas, de improviso,
o tornam sade atrs passada.
Sesudo, Trasilau ao caro irmo
agradece a vontade, a obra no.

Porque, depois de ver-se no perigo
dos trabalhos que o siso lhe obrigava,
e depois de no ver o estado antigo
que a v opinio lhe apresentava,
« imigo irmo, com cor de amigo,
para que me tiraste – suspirava -
da mais quieta vida e livre em tudo
que nunca pde ter nenhum sesudo?

Por que rei, por que duque me trocara!
Por que senhor de grande fortaleza!
Que me dava que o mundo se acabara,
ou que a ordem mudasse a Natureza?
Agora -me pesada a vida cara;
sei que cousa e trabalho e que tristeza.
Torna-me a meu estado, que eu te aviso
que na doudice se consiste o siso.»

Vedes aqui, Senhor, mui claramente,
como Fortuna, em todos tom poder,
seno s no que menos sabe e sente,
em quem nenhum desejo pode haver.
Este s pode rir da cega gente;
neste no pode nada acontecer:
nem estar suspenso na balana
do temor mau, da prfida esperana.

Mas se o sereno Cu me concedera
qualquer quieto, humilde e doce estado,
onde com minhas Musas se vivera,
sem ver-me em terra alheia degradado;
e ali outrem ningum me conhecera,
nem eu conhecera outro mais honrado,
seno a vs, tambm como eu contente,
que bem sei que o sereis facilmente;

e ao longo dũa clara e pura fonte,
que, em borbulhas nacendo, convidasse
ao doce passarinho que nos conte
quem da clara consorte o apartasse;
depois, cobrindo a neve o verde monte,
ao gasalhado o frio nos levasse,
avivando o juzo ao doce estudo,
mais certo manjar de alma, enfim, que tudo;

cantara-nos aquele que to claro
o fez o fogo da rvore Febeia,
a qual ele, em estilo grande e raro
louvando, o cristalino rio enfreia;
tangera-nos na frauta Sannazzaro,
ora nos montes, ora pela aldeia,
passara celebrando o Tejo ufano
o brando e doce Lasso castelhano.

E connosco tambm se achara aquela
cuja lembrana e cujo claro gesto
n' alma somente vejo – porque nela
esta em essncia, puro e manifesto,
por alta influio de minha estrela – ,
mitigando o firme peito honesto,
entretecendo rosas nos cabelos,
de que tomasse a luz o Sol em v-los;

e ali, enquanto as flores acolhesse,
ou pelo Inverno ao fogo acomodado,
quanto de mim sentira nos dissesse,
de puro amor o peito salteado:
no pedira ento que Amor me desse
de Trasilau o insano e doudo estado,
mas que ento me dobrasse o entendimento,
por ter de tanto bem conhecimento.

Mas para onde me leva a fantasia?
Porque imagino em bem-aventuranas,
se to longe a Fortuna me desvia
que inda me no consente as esperanas?
Se um novo pensamento Amor me cria
onde o lugar, o tempo, as esquivanas
do bem me fazem to desamparado
que no pode ser mais que imaginado?

Fortuna, enfim, co Amor se conjurou
contra mim, por que mais me magoasse;
Amor a um vo desejo me obrigou,
s para que a Fortuna mo negasse.
A este estado o tempo me achegou,
e nele quis que a vida se acabasse;
se h em mim acabar-se, que eu no creio;
que at da muita vida me receio

Luís Vaz de Camões
[QUEM PODE SER NO MUNDO TÃO QUIETO]
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