MOTE ALHEIO

A dor que a minh' alma sente
no na sabe toda a gente.

VOLTAS

Que estranho caso de amor,
que desejado tormento,
que venho a ser avarento
das dores de minha dor!
Por me no tratar pior,
se se sabe ou se se sente,
no na digo a toda a gente.

Minha dor e causa dela
de ningum ouso fiar,
que seria aventurar
a perder-me ou a perd-la.
E pois s com padec-la
a minha alma est contente,
no quero que a saiba a gente.

Ande no peito escondida,
dentro n'alma sepultada;
de mim s seja chorada,
de ningum seja sentida.
Ou me mate ou me d vida,
ou viva triste ou contente,
no ma saiba toda a gente.

 

 

 

Luís Vaz de Camões
[A DOR QUE A MINH' ALMA SENTE]
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