Impossível visão
Cujo rastro estremece
Dentro em meu coração,
Vens como a sombra desce
E todo o esforço e’ vão...
 
Apenas te pressinto;
Nunca te pensei ver;
Mas o halo do que sinto
É feito do teu ser.
Vens como o amanhecer.

Nada te espera em mim.
Passas, e eu sou distante
As mágoas sentem fim,
A ambição vigilante
Dorme no teu jardim

Não te busco sentido.
Não mo busco também.
Hálito, alor, gemido,
Vã sombra dum vão bem,
Hora que ninguém tem,

Aparência que adoro
Por só essa te julgar,
Faze com que o que eu choro
Não me faça chorar
Mas apenas sonhar...

Ténue sopro, palor
Da sombra perfumada...
Eu te amo e sem torpor
De ter amor a ti, que é nada,
Seja o meu amor.

Cria em mim não obter-te
Sem angústias nem ais...
Basta a ilusão de ver-te,
Baste não seres mais,
Do que a mágoa com que vais

 

14 - 1 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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