Leve no cimo das ervas
O dedo do vento roça...
Elas dizem-me que sim...
Mas eu já não sei de mim
Nem do que queira ou que possa.

E o alto frio das ervas
Fica no ar a tremer...
Parece que me enganaram
E que os ventos lhes levaram
O com que me convencer.

Mas no relvado das ervas
Nem bole agora uma só
Porque pus eu uma 'sperança
Naquela inútil mudança
De que nada ali ficou?

Não: o sossego das ervas
Não é o de há pouco já.
Que inda a lembrança do vento,
Me as move no pensamento
E eu tenho porque não há.


13/14-10-1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar