Ruge a alegria da revolta 
Nas nossas ruas concorridas... 
De quando em quando o canhão solta 
As ocas vozes desmedidas... 

O crebro e acre estralejar 
Da nítida fuzilaria 
Ocupa as curvas do ar 
Com a sua certeza fria... 

Cai a noite, mas continua 
Na incerta inclinação da hora 
A voz dos tiros, cousa nua 
No ouvido que conhece e ignora. 

Uma febre ligeira toma 
Os nervos deslocadamente... 
Cada minuto ao longe assoma 
Em solidão à alma ausente... 

Que querem todos? Nada... Um palmo
De ilusão mais sobre nuvens belas...
E cobre tudo, alheio e calmo
O céu, tão plácido de estrelas.

4 - 10 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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