Leve e alegre, é o dia.
      Há como (que) asas no ar.
Tudo é como uma alegria
      Quando vai começar.
O azul do céu, o verde
      Da terra, o rio — tudo
Sem se fundir se perde
      Num vago acordo mudo.

Porque gozo isto tanto
      Que me dói ser □?
Porque é que passou o pranto
      Me vela o mundo em dor?

Esta alegria — vê-la
      Dói-me só por a ver,
Vê-la e não poder tê-la,
      De outro modo que só ver.

Ah, que alta dor dorida
      Uma dor de vida calma,
Algures iremos, ida
      Para onde não há minha alma...

Trémulos vincos risonhos
      Na água estremecida...
Porque fiz eu dos sonhos
      (A) minha única vida.

13 - 9 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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