Traze, porque a verdade nada traz,
Com as mentiras dessa veste rara,
O ouro que o traje teu sinistro faz,
O ouro que faz sinistra a tua tiara.
Sobre o peito a cruz jaz.

Traze, porque a mentira é rosa e lírio,
O teu cansaço de eu ser tu, que vem
Dos festivais longínquos do delírio,
Para que seja ritual também,
Cálice e hóstia e círio.

Traze, longínqua penitente exposta
Aos mistérios do mundo que não há,
A veste que sobre a alma em corpo é posta,
A tiara de luz que a sombra dá,
Traze o que a febre gosta.

2 - 10 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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