Que torpor vela o olhar que quero ter?
É um sono que me obriga
A não saber quem sou ou sonho ser,
Ou qualquer vaga coisa antiga,

Que está pensando, ébria de memória,
Numa vida que não teve
Antes que a vida que há tivesse história
E que esse história fosse breve?

Nada: um cansaço que me pesa sobre
cada órbita que vê
Na involuntária pálpebra que a cobre
O calor cego de uma fé.


[24-8-1934]

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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