Por vezes penso que o imenso mar
Quando nele não há olhos para olhar,
E, sem tempestade, o vasto deserto
Quando não tem traço de vida por perto,
Devem ser cenário do medo em pensamento
Que não pode presenciar o próprio acto;
Penso que é um silêncio perfeito e isento
           De olhos, de ouvidos, de humano tacto…
Que aí habitam os fantasmas da imaginação
                E que Deus lá, ironicamente,
           Assiste a horrores, abundantemente,
           E as coisas que negam qualquer descrição.

Quando não vejo a minha sombra própria
Escondida por coisas que ali a encobrem
Perco da alma os humanos sentidos.
Mas o que são esses vultos temidos
Nem eu nem ninguém o pode saber;
Pois se me volto para trás para ver,
Logo que eu olho nada vou encontrar,
Apenas porque me virei para olhar;
Isto porque a alma se virou também
Para trás, para olhar e saber.
Sei que estão lá. Mas para onde vão
Os temidos fantasmas da imaginação?
Talvez eles vivam uma calma existência
No mundo vago onde não há luta
Tendo das coisas a suprema essência.
 

1905

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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