Estarei agora pronto a oferecer pequenos pedaços do 
meu ser, a entregá-los como se fossem um todo e me 
encerrassem, metáfora de pedra. 

Neste aproximar da meia-noite vem-me aos lábios um 
gosto de amêndoas amargas, uma incisão num passado 
recente, o último sabor de um corpo que se prepara para 
dormir. 

Não é o que parece. É uma história de morte ilustrada 
por grandes faces de vidro. O mergulho numa noite que 
tomo como se fosse minha, que recebo como um ombro 
de mármore. 

O que foi arrastado não regressa, O que sobe até mim 
é uma haste solitária,, uma sede imóvel marcada por 
um gemido de espinhos. 

(não uma linha de vértebras que se inclina no limite 
do êxtase, uma boca que fecha os olhos para melhor 
respirar...) 

Gostaria de poder interpretar serenamente, de me orien-
tar na confusão dos sinais. No fundo das pedras perdi 
o rosto, a voz, a chave do silêncio. 

O passado era crer que a parte me encerrava. Esta 
passagem deu-me novos olhos: a cegueira da neve. 

Afundo-me nessa ideia inabitável: 


In LUZ VEGETAL , Limiar, 1975
Egito Gonçalves
[[ESTAREI AGORA PRONTO...]]
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