Falam de nós na cidade
Porque dizem que te ofereço
Coisas de que não disponho,
Como se fosse maldade
Dar-te os olhos para berço
E os cabelos para sonho.
Dizem que quando eu me deito
Contigo uma lua negra
Vem fazer o casamento.
Como se fosse defeito
Saber que a vida não chega
Para o nosso sentimento.
Lá porque o nosso passeio
É uma fuga das grades
Que em cada gesto partimos.
Dão um nome muito feio
Àquelas intimidades
Em que ficando, fugimos.
Dizem que este desatino
É a maldita lembrança
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança
É legado natural.
Porque é virtude tocar-te
Tu és mais puro que um deus
Purificas o que afagas.
Meu amor só de afagar-te
A minha mão chega aos céus
E sou mais forte que as pragas.

 

 


In Inéditos, 1947-55
Natália Correia
FADO
« Voltar